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Só entre nós

Só entre nós

“Portugal merecia uns 100 restaurantes com estrela"

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Quando escrevo sobre o reduzido número de restaurantes com estrelas Michelin em Portugal, "chovem" comentários de pseudo entendidos a explicarem-me, como se fosse burro, que nós não temos restaurantes com tanta qualidade, que não nos podemos comparar, muito menos com os espanhóis, que não temos uma grande quantidade de restaurantes de qualidade...

 

Quando escrevi que o Euskalduna merecia duas estrelas, levei logo com "Nem uma pode levar. Com balcão? Sem serviço Michelin? Não percebes nada..."

 

Quando elogiei a Casa de Chá da Boa Nova e disse que merecia muito mais destaque do que tem e eventualmente duas estrelas, li em resposta comentários sarcásticos. 

 

Agora o Ferran Adrià veio a Portugal e disse:

“Portugal, o Governo português e as autoridades do turismo podem ter uma grande palavra a dizer neste campeonato. É preciso saber transmitir [essa identidade gastronómica] com a ajuda do marketing e da comunicação. Não podemos achar que vender o nosso país é algo feio. Só o é quando o fazem com mentiras.”

 

“A cozinha portuguesa tem produtos incríveis, melhores não existem, só iguais. O Japão não tem melhores produtos que a Península Ibérica. Isto é importantíssimo. Eu comi marisco português de nível dez!”

 

Casa de Chá da Boa Nova. O que achou sobre isso? “É o restaurante mais bonito do mundo. Todas as pessoas que amam a gastronomia têm de ir lá, é incrível, de fazer chorar. Carta de vinhos extraordinária, serviço de três estrelas e  comida fantástica. O Rui Paula é fantástico. Este sítio tem uma estrela mas facilmente teria duas.”

 

Sobre o Euskalduna — “Um restaurante de comida de autor onde se come ao balcão? Isso era impensável de existir no Ocidente há 20 anos.” — foi dos que mereceu elogios mais rasgados: “Fomos ao Euskalduna e aquilo está a um nível de duas estrelas [Michelin], sem qualquer discussão. Tudo português, ainda por cima.”

 

“Eu abriria já amanhã pelo menos dois conceitos aqui em Portugal. Estou reformado e tal mas se quiserem montar um negócio comigo… [risos]. Um seria de tempura… Por favor! O governo que pague a um rapaz ou a uma rapariga para fazerem um sítio de tempura em Portugal! O outro seria uma  marisqueira de autor, como o Elkano [famoso restaurante no País Basco] com especiarias. Da mesma forma que se põe sal, púnhamos um pouco de caril, por exemplo.”

 

Para terminar:

O antigo chef do elBulli explica que por muito que seja importante ter noção de que todos os países têm de ter um “limite” de restaurantes de topo (“Uma cidade não consegue suportar mais de 25 três estrelas”), Portugal está longe de chegar a esse máximo. “Quantos stands da Ferrari há em Lisboa?”, pergunta. “Dois”, respondeu-lhe uma cara na “plateia”, e Adrià ripostou de imediato: “Então deviam ter pelo menos dois três estrelas.”

“Quantos restaurantes gastronómicos, de máximo nível, podem haver em Portugal? 100?Quantos restaurantes estrelados há em Portugal? Uns vinte? Só? Mereciam, perfeitamente, uns 100. Pelo que vi, posso garantir-vos.”

 

Talvez ele também seja burro, por isso se os pseudo entendidos puderem explicar-lhe a "realidade"... É que ele, coitado, não conhece nada, não percebe nada deste mundo, nem entende como funciona.

 

Opiniões todos as devemos ter, mas se parássemos um pouco de criticar o que é nosso, só porque é nosso, e passássemos a lutar pela tremenda qualidade que temos, talvez fosse melhor. Mas eu não percebo nada disto, já sei. 

 

Excertos do artigo do Diogo Lopes no Observador.

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