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Só entre nós

Só entre nós é um blog só para nós. Para escrevermos sobre aquilo em que pensamos, sobre o que gostamos, ou não, sobre viagens fabulosas, restaurantes, pessoas que admiramos, ou que nos deixam os cabelos no ar, livros lidos e muito mais.

Só entre nós

Só entre nós é um blog só para nós. Para escrevermos sobre aquilo em que pensamos, sobre o que gostamos, ou não, sobre viagens fabulosas, restaurantes, pessoas que admiramos, ou que nos deixam os cabelos no ar, livros lidos e muito mais.

O meu amor por ti

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Lembro-me bem do momento em que senti, pela primeira vez, um bater forte do coração ao olhar para ti. Percebi, nesse instante, que te amava.

 

Não foi amor à primeira vista o nosso. Nada disso. Não vou dizer que não senti nada ou que não foi especial aquele olhar penetrante e inquieto que me lançaste quando nos conhecemos, mas não nasceu ali uma paixão. Não foi amor à primeira vista o nosso.

 

No fundo, levámos os dois algum tempo a conhecer-nos melhor. Entraste na minha vida de repente. Claro que eu estava à tua espera há já algum tempo, mas nada nem ninguém me tinham preparado de verdade para a tua chegada. Deveria ter sido uma coisa natural, mas não foi. Entraste de repente na minha vida e eu fiquei em choque.

 

Aos poucos, dia após dia, noite após noite, fui-te conhecendo e reconhecendo cada vez melhor. E, aos poucos, foste começando a fazer parte da minha vida. E, assim, devagar, o amor foi surgindo e crescendo. Sem pressas, nem atropelos. E agora, de repente, tudo em ti é especial: o cheiro da tua pele, a doçura do teu olhar, a força dos teus braços, a ternura do teu sorriso. E, assim, a cada dia que passa, em cada olhar que trocamos, o nosso amor cresce e fica mais forte.

 

E hoje, meu filho, estou certa de que o nosso amor não será menor por não ter surgido à primeira vista sob a forma de uma paixão avassaladora. No fundo, poderá até vir a ser mais forte. As ervas daninhas crescem rápido, mas não prestam para nada. Os carvalhos crescem devagar, mas são fortes e duradouros.

O corpo da mulher depois da gravidez - Toda a verdade sobre recém-nascidos #6

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A propósito desta notícia do Observador, lembrei-me de escrever sobre este assunto, tão banal quanto abafado na sociedade ocidental dos nossos dias.

 

É verdade que há mulheres (poucas) que conseguem rapidamente voltar à forma pré-gravidez, ou ainda melhor, sem estragos de maior. Ou seja, não só perdem o peso e a barriga, como ainda exibem essa mesma barriga sem estrias e umas belas coxas sem celulite. Exemplos de raridades como estas há muitas, como a modelo da Vogue, mas assim mais perto temos a Carolina Patrocínio, a Fernanda Velez (Blog da Carlota) ou a recém-mamã Maria Guedes (Stylista). Mas estas senhoras são a exceção que confirma a regra. Claro que isto não lhes tira o mérito de aumentarem pouco de peso na gravidez e de se esforçarem a sério para regressarem depressa à forma física que tinham antes.

 

Mas, falo agora por experiência própria, o corpo da mulher sofre, de facto, grandes modificações com a gravidez. E voltar ao estado anterior não só é difícil, como, muitas vezes, impossível. A maioria de nós sofre com esta questão no pós-parto, de uma forma mais ou menos acentuada. A juntar à angústia de lidar com o desconhecido, ao drama da amamentação, das noites mal dormidas, do choro inconsolável, há ainda a imagem ao espelho que não perdoa. Mesmo depois dos primeiros quilos perdidos com o parto e nos dias a seguir, quando finalmente conseguimos dois minutos para olhar para nós, aquilo que vemos é terrível: a barriga de quatro meses, agora flácida e cheia de estrias, a anca larga e as coxas com celulite, os derrames nas pernas, os tornozelos e as mãos ainda inchados, os cabelos baços e a começarem a cair, as borbulhas no queixo... Enfim, para muitas de nós, lidar com um trambolhão hormonal, um corpo desfigurado e um recém-nascido nos braços de uma só vez, não é fácil e leva a momentos de algum desespero e muitas lágrimas.

 

Infelizmente, não sou a única a passar por isto (embora às vezes pense que sou). A propósito deste tema, e porque o mal de muitos é conforto, há até um blog criado a pensar no drama da maioria das mulheres ao ver o seu reflexo no espelho depois do parto - chama-se "The Shape of a Mother" e vale a pena visitar quando acharem que são as únicas.

 

Truques para lidar com este problema? Ainda estou muito verde neste tema, mas o que resultou melhor comigo foi começar uma dieta a sério quando o meu filho fez um mês. Claro que ajudou ter deixado de amamentar nessa altura e, assim, poder fazer dieta à vontade. Ao mesmo tempo, pude começar a fazer exercício físico, sobretudo grandes caminhadas ao ar livre, o que ajuda muito. Agora resta esperar que tudo isto resulte e que, pelo menos, o peso volte ao normal. O resto das mazelas ficam para recordar os nove meses mais belos da minha vida.

Toda a verdade sobre recém-nascidos #5 - Viver em surdina

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Depois do bebé nascer, parece que o volume sonoro, em geral, aumentou. Soa estranho?

 

Eu explico melhor... A televisão, com o volume no mínimo, berra (e não apenas com a Cristina Ferreira no ecrã). Arrumar a loiça lavada (sobretudo os talheres) perfura qualquer tímpano. Os vizinhos de cima, que nem sabíamos que existiam, agora deixam cair tudo a cada passo. O microondas, a esterilizar biberões em loop, é pior que um avião em pleno voo. Os vidros duplos das janelas deixaram de abafar os sons da rua. O toque do telefone soa a concerto de rock. Uma torneira aberta é uma cascata. A descarga do autoclismo é um autêntico dilúvio. Os chinelos de quarto fazem mais barulho que botas de salto alto.

 

Isto constitui um problema enorme nas nossas vidas... Porquê? É que depois da árdua tarefa de adormecer o bebé e pousá-lo no berço sem que se desperte, qualquer esforço é válido na tentativa de que aguente assim até à próxima mamada. Se tiver de ser, desliga-se a televisão, sussurra-se em vez de falarmos normalmente, adia-se a lavagem da roupa, dispensa-se o banho (em último caso), aguenta-use o xixi e partilham-se as descargas do autoclismo para fazer barulho de uma só vez, fecham-se todas as janelas (nem que o ar ambiente esteja irrespirável e lá fora sopre uma brisa refrescante), põem-se os telemóveis em modo voo (não há mais chamadas urgentes), desliga-se a campainha, andamos descalços, se possível até levitamos... E, se pudéssemos, comprávamos o prédio todo só para não haver mais nenhum barulho da vizinhança.

 

E depois deste esforço todo, verificamos que, quando o bebé dorme de verdade, não há barulho que o perturbe. No carro, a música pode estar aos berros que ele não ouve. Na rua, os carros podem buzinar à vontade. Quando temos visitas, podem falar alto e todos ao mesmo tempo. Quando dorme de verdade, nem um tremor de terra o abala!!! Só entre nós, estamos mesmo maluquinhos de todo...

 

Leia também:

Toda a verdade sobre recém-nascidos #1 - A amamentação

Toda a verdade sobre recém-nascidos #2 - As noites

Toda a verdade sobre recém-nascidos #3 - Quem tem medo do lobo mau?

Toda a verdade sobre recém-nascidos #4 - Viver na penumbra

Toda a verdade sobre recém-nascidos #4 - Viver na penumbra

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Durante o dia, a nossa vida é até bastante iluminada. Abrimos os estores da casa toda, logo bem cedo pela manhã, deixamos entrar o sol sem medos e o nosso bebé dorme relativamente bem, sobretudo se estiver ao colo.

 

Com o cair da noite, o caso muda de figura. Ao que nos parece, este bebé já percebeu bem a diferença entre o dia e a noite, o que até é muito positivo, uma vez que a partir das 9 horas da noite deixa-se pousar tranquilamente no seu bercinho (o que dificilmente acontece de dia) e dorme bem, nos intervalos em que não está a comer...

 

O que acontece é que a partir desta hora não podemos acender luzes que ele possa detetar. Porquê? Simples. Porque receamos acordar a ferinha adormecida. Temos medo que, com luzes acesas, ele entenda que é de dia e acorde a pedir colo (o que, atualmente, é como quem diz a berrar desalmadamente). Então, a partir das 9 da noite, vivemos às escuras cá em casa. Ou tão às escuras quanto possível. Entramos na cozinha às escuras, fechamos a porta e acendemos a luz. Na sala, acendemos uma luz fraquinha  (aqui mais tranquilos porque estamos mais afastados do quarto). Não usamos a casa de banho do quarto, mas sim a social e no mesmo esquema da cozinha. No hall, as luzes embutidas no teto deixaram de ter utilidade (logo agora que tínhamos mudado tudo para LED, percebemos que afinal a maior poupança consistia em desligá-las porque, como se vê, não fazem falta). E, finalmente, quando queremos ir para a cama, junto à qual ele dorme a sono solto no seu berço, usamos a luz do telemóvel, discretamente.

 

Resta-nos esperar que, assim como foi rápido a perceber a diferença entre o dia e a noite (na questão da luminosidade, com certeza, porque no que toca à comida ainda não percebeu nada), possa também depressa compreender a diferença entre a luz solar e a luz elétrica...

 

 

Leia também:

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Toda a verdade sobre recém-nascidos #1 - A amamentação

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Toda a verdade sobre recém-nascidos #1 A amamentação

 

Bem antes de engravidar, já tinha lido sobre o tema da amamentação em vários blogs. Fui percebendo que há quem seja a favor, quem seja indiferente, quem seja contra mesmo sem experimentar e, ainda, quem seja totalmente fundamentalista e não veja outra possibilidade que não a amamentação em exclusivo até aos 20 anos do seu bebé!

 

Confesso que apenas me divertia enquanto lia os posts e respetivos comentários. Nunca pensei muito a sério no assunto. Para mim, era lógico que tendo mamas capazes de produzirem leite, caso tivesse um bebé iria amamentá-lo até voltar ao trabalho. Não pela ideia romântica da amamentação como forma única de criar laços entre mãe e filho, mas simplesmente porque sei, como toda a gente sabe, que o leite materno tem propriedades únicas que fazem dele o melhor alimento que cada mãe pode dar ao seu filho.

 

Já durante a gravidez, procurei informar-me melhor sobre o assunto. Li alguns livros e artigos a este respeito. Concluí que amamentar não seria assim tão simples quanto pôr a maminha de fora e deixar o bebé beber o leite até não querer mais. Comecei a perceber que o leite e a sua produção se vão alterando ao longo do tempo. Comecei a perceber que algumas etapas poderiam ser mais difíceis do que eu antevia, sobretudo quando li sobre a subida do leite e as mastites e por aí adiante... A verdade é que não fiz nenhum curso de preparação para o parto, por considerar (agora reconheço que estupidamente) que qualquer mulher nasce preparada para o parto. Se isto tem um fundo de verdade, certo é que hoje percebo que não há mal nenhum em prepararmo-nos o melhor possível para o parto e, sobretudo, para o pós-parto.

 

Ainda assim, para mim seria impensável não tentar amamentar. Se tivesse leite, deveria dá-lo ao meu filho. E em todo o lado li sempre que o segredo para o sucesso da amamentação é, precisamente, amamentar. Nunca desistir, insistir sempre e manter a calma. Pensei que não seria assim tão complicado. Afinal, há muitos milhares de anos que as mulheres amamentam os seus filhos sem aparentes dificuldades de maior. Nunca, nas minhas relações mais próximas, ouvi alguma mulher queixar-se das agruras da amamentação. Não. Pelo contrário, sempre ouvi (às poucas que falaram disso) que tinham adorado amamentar.

 

O momento da verdade chegou pouco depois do parto. Ainda na sala onde o meu filho veio à luz, de parto normal, rápido e sem complicações, uma enfermeira perguntou-me se queria amamentar. Já tinha decidido que não havia outra hipótese, pelo que respondi logo que sim. Mal chegámos à sala de recobro, veio então a enfermeira apertar-me o mamilo e enfiá-lo na boquinha do meu filho recém-nascido, que de imediato lhe pegou e começou a sugar com toda a força! Como pode um récem-nascido ter tanta força?! Chamem-me ingénua ou mal preparada ou o que quiserem, mas a minha surpresa foi enorme! Não me queixei a ninguém, exceto ao pai da criança, e continuei a fazer o mesmo de três em três horas, conforme me disseram que fizesse. Durante a primeira noite, em vez daquela ligação especial ente mãe e filho prometida por qualquer defensora da amamentação, o que sentia era dor e uma vontade enorme de que cada mamada terminasse tão depressa quanto possível, para que o pai do meu filho pudesse por fim tirá-lo dos meus braços para eu respirar... No dia seguinte já tinha dores insuportáveis de cada vez que amamentava e os mamilos começaram a gretar, mesmo com o kit amamentação que levei para a maternidade e apliquei desde o primeiro momento (creme anti-fissuras e conchas protetoras, aos quais rapidamente juntei também os discos de hidrogel). A isto junta-se um bebé pequenino que acorda de dia e de noite de hora a hora e as visitas que se sucedem e não saem do quarto no momento da amamentação... No dia da alta, já a minha cabeça estava naufragada em sofrimento físico e pura exaustão psíquica.

 

Ao chegar a casa, as coisas complicaram-se ainda mais. Por um lado, deixou de haver ajuda de enfermeiras e auxiliares, deixou de haver serviço de refeições a horas certas, deixou de haver uma campainha para chamar alguém mais experiente no meio da noite quando o bebé chora desalmadamente e nós não sabemos porquê nem o que fazer para o acalmar... Por outro lado, as visitas mantêm-se, as nossas rotinas são completamente alteradas e deixamos de ter horas mais ou menos certas para tomar banho, para comer, para dormir... E no meio disto tudo, lidamos com o descontrolo hormonal do pós-parto que só nos dá vontade de chorar. Para complicar ainda mais, o bebé mama de duas em duas horas, de noite e de dia, e fica a mamar uma hora de cada vez. Isto faz com que o intervalo entre mamadas, para dormir, para comer ou para tomar banho, se resuma a uma hora, na melhor das hipóteses!!! Quando se percebe que o bebé chora inconsolável no final de cada mamada porque ficou com fome, então a amamentação perde não o encanto (que para mim nunca teve), mas a sua função primordial de alimentar o meu filho recém-nascido que já saiu da maternidade com menos 10% do peso que tinha ao nascer.

 

Apesar de ter tido muita vontade, ainda não tive coragem de desistir totalmente da amamentação, mesmo tendo que oferecer sempre suplemento depois do meu leite, que é realmente pouco. E não desisti porque comecei o processo e agora vou deixar que seja a natureza a encarregar-se de o suprimir quando tiver que ser. Mas não é fácil, não é agradável e, para mim, não é bonito. Quando, ainda por cima, o leite não chega, e é necessário usar o leite da lata para que o bebé engorde, então torna-se inglório. Agora que sei o que é isto da amamentação na prática, não só não critico quem opta por não amamentar à partida, como eu própria sei agora que não amamentarei, para lá do colostro dos primeiros dias, nunca mais na vida, caso venha a ter outro filho. Podem crucificar-me. No fundo, sei agora que o vínculo inicial entre mim e o meu filho seria muito mais forte se tivesse começado logo com biberão e sem sofrimento. E o bem estar da mãe reflete-se no bem estar do bebé, suplantando para mim qualquer uma das maravilhosas vantagens do leite materno, sobretudo sabendo que este não é suficiente, o que faz com que o bebé acabe por beber muito mais leite artificial do que materno...

Carta ao saltitão que tenho dentro da barriga

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Escrevo esta carta como se estivesse em mar alto. Com o iPad ligeiramente apoiado na barriga, vou vendo as letras aos saltos, ao sabor das ondas. Mas, neste caso, as ondas dentro da minha barriga são os teus pontapés, os teus soluços e as tuas cabeçadas. A minha barriga aos saltos é a demonstração clara de que tenho uma vida nova dentro de mim. Agora que estou a entrar no último mês de gravidez, sinto cada vez mais a força que esta nova vida já tem.

  

Meu filho,

 

É a primeira vez que te escrevo. Porque será que levei oito meses completos para decidir fazê-lo? Não sei. Sei apenas que hoje quero escrever-te.

 

Há oito meses que vives dentro de mim. Há oito meses que gosto de ti e que sei que já não posso viver sem ti. Passaram a correr estes meses... És o centro do meu mundo desde o dia em que te soube dentro de mim, quando não medias sequer um centímetro. Não quis acreditar que tinha dois corações a bater dentro do meu corpo naquele dia frio de Novembro em que vi o teu pequeno coração a piscar no monitor da ecografia pela primeira vez! Depois chegou o dia em que soube que no meu sangue circulavam alguns cromossomas Y. Todos teus, claro! A partir desse dia, adquiriste um nome e uma personalidade. Comecei a acreditar que estavas mesmo a crescer dentro de mim. E um dia, já este ano, em Janeiro, de repente, sem aviso prévio, começaste a fazer-te sentir, primeiro com muita suavidade, quase a pedir licença, e depois, aos poucos, cada vez mais e com mais genica! A partir desse dia, só estou bem quando te mexes. E os meus dias têm altos e baixos em função dos teus pontapés. Acreditas nisto? Por sorte, és um saltitão! Ultimamente, já tens tanta força que até há alturas em que te peço para acalmares...

 

Felizmente, tem sido um percurso tranquilo este de te trazer dentro da barriga. Sem percalços, sem enjoos, sem desejos, sem queixas. Tens sido um bebé fácil até agora. Falta pouco para nasceres. Custa acreditar que daqui a um mês já te tenho nos meus braços. Começo a imaginar como serás... Ao que parece, és gordinho. Que bom! Imagino-te bochechudo e com os olhos grandes e pestanudos do pai. Imagino a suavidade da tua pele rosada e macia, própria de um recém-nascido, e o teu cheirinho de bebé a tomar conta do meu coração. Imagino o caminho do hospital para casa, a tua primeira viagem naquele ovinho lindo que já treinámos a instalar no carro. Imagino-te a entrares em casa pela primeira vez, comigo e com o pai, e nós a fazermos de cicerones, a querermos mostrar-te todos os recantos, como se os percebesses bem, como se não tivesses tempo de os vires a conhecer por ti próprio, com calma, ao longo do tempo... Imagino-me a deitar-te no teu berço pela primeira vez, a amamentar-te naquele cadeirão do teu quartinho, onde já tudo está a postos para te receber. Imagino o teu primeiro banho em casa e a nossa alegria nesse momento. Imagino até as noites mal dormidas que nos esperam, mas que sei que não custarão tanto assim porque são por tua causa, e por ti tudo vale a pena.

 

Não me conheces bem ainda, meu amor pequenino, apesar de estares dentro de mim há oito meses, mas quando me conheceres vais perceber que já consigo imaginar, ainda tu não nasceste, o dia em que vais começar a andar, as primeiras palavras, as tuas brincadeiras, o teu primeiro dia de aulas, as tuas festinhas da escola, a primeira vez em que vais querer sair sem nós, a tua entrada para a faculdade, a tua saída de casa para o mundo... E vais perceber que já tenho uma lágrima a escapar do cantinho do olho ao imaginar-te já crescido e independente.

 

Começa em breve o maior desafio da minha vida, o de ser mãe. Eu sei que a vida está dividida em etapas de crescente dificuldade, por isso não me surpreende que esta seja a etapa mais difícil de todas até agora. Mas é na dificuldade do caminho que reside a maior satisfação na conquista do objetivo final. E eu não desisto perante as dificuldades, quero que aprendas isso comigo. O melhor exemplo de mãe que tenho por perto é a minha própria mãe. Não será fácil igualá-la neste papel. Tentarei ser eu mesma, copiando dela aquilo de que melhor me lembro e que fez de mim o melhor que sou hoje. No fundo, meu filho, aquilo que quero mesmo é fazer de ti um Homem. Um Homem a sério. Com o coração do teu pai, com os valores em que acredito, útil para a nossa sociedade, e de bem contigo e com a vida. Essa é a minha missão a partir do dia em que nasceres.

A nossa cultura atual exige que as mães sejam tudo, o tempo todo

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O nosso problema - "mamã"

Por Heather Havrilesky, no New York Times

Ilustrações de Anna Kövecses

(Original em inglês, aqui)

 

Quando oiço alguém dizer a uma grávida que ter um bebé vai transformá-la numa nova pessoa, não consigo deixar de imaginar uma meteorologista patologicamente otimista a avisar, enquanto sorri, que vem aí um tornado que vai mudar por completo uma cidade. Ser mãe não a muda assim tanto, ao mesmo tempo que a renova violentamente, apesar de continuar a ser a mesma pessoa por baixo da mudança.

 

No entanto, isto pode ser difícil de lembrar quando professores, educadores, pediatras e estranhos, deixam subitamente de tratá-la pelo seu nome, ou até por senhora, e passam a chamá-la de "Mãe". É certo que vai sentir que é uma nova pessoa - que necessariamente não conhece ou reconhece.

 

A maternidade já não é vista, simplesmente, como uma relação com o filho, um papel que desempenha em casa e na escola, ou até mesmo como uma instituição sagrada. A maternidade foi elevada - ou talvez rebaixada - para o reino do estilo de vida, uma identidade abrangente, com exigências e expectativas que eclipsam tudo o resto na vida da mulher. 

 

"Bando de mamãs à solta?" - Eu e algumas amigas fomos recentemente beber uns copos a um bar, quando um desconhecido presenteou-nos com esta frase. Um bando de mamãs. Essa raça alienígena com carrinhos de bebé, refeições embaladas e protetores solares. A sua expressão sugeriu que era estranho que uma mulher encarregue de levar o filho das aulas de Kumon (instituição de ensino particular) para os jogos de futebol pudesse sair da cidade e beber umas cervejas como qualquer outro ser humano normal. (Em primeiro lugar, como é que ele descobriu que éramos mães? Terão sido os extra-largos copos de cerveja, com MAMÃ! escrito nas laterais que nos denunciou?)

 

Perante aquela atitude retrógrada do "Mad Men", abanámos zangadas as nossas cabeças. Contudo, a verdade é que neste momento em particular da nossa história, uma combinação de excesso de zelo parental, marketing e glorificação do coração e casa persuadiram o público a ver as mães como uma raça estranha, diferente das pessoas normais. Até se pode sentir a mesma pessoa lá no fundo, mas o que o mundo aparentemente vê é uma mulher a arrastar um enorme cordão umbilical.

 

É difícil criticar as pessoas, pois a nossa cultura está cheia de coisas com "mãe" e "mamã": aulas de yoga "Mamã e Eu", manicures "Mamã e eu" e makeovers para "mamãs". Ande pelo mundo com uma criança a tiracolo e não se vai livrar depressa da palavra. Se postar alguma coisa no seu blog sobre ter filhos, passará a ser uma "mamã blogger". Se cortar o cabelo curto, fez um "corte à mãe". Se tiver algumas coisa a dizer sobre o desafio de conciliar vida e trabalho, já faz parte das "lutas de mamãs". Se precisa de um copo depois de toda esta conversa de mamãs, está a ter uma "noite de mãe sem filhos", o que significa que pode tornar-se numa "mãe selvagem".