Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

soentrenos

Um país onde ninguém pode morrer

photo.jpg

 

Era uma vez uma senhora de 100 anos que fez uma fratura grave e teve de ser levada para o hospital.

 

A senhora de 100 anos foi operada e apanhou uma pneumonia durante o seu internamento. Algo normal quando se mistura num mesmo copo alguém idoso e debilitado num ambiente hospitalar.

 

Ao saber da pneumonia da senhora com 100 anos, uma familiar foi ao hospital e ameaçou tudo e todos com processos judiciais. Porquê? Porque a senhora de 100 anos tinha entrado no hospital bem (!!!) e agora tinha uma pneumonia. E se ela morresse, seriam todos processados. Todos. 

 

Ou seja, a senhora de 100 anos, que tinha sido levada para o hospital na sequência de uma fratura muito grave (mas tinha entrado bem no entender da familiar) não podia morrer. Sob pena de todos aqueles que fazem (bem) o seu trabalho serem processados.

 

Faz sentido, não faz? É o país que temos. Onde ninguém pode morrer, mas onde também muitos dos familiares de idosos que vão para o hospital ficam tristes quando esses têm alta e fazem tudo o que estiver ao seu alcance para adiar a alta.

 

Porque os idosos não podem morrer, mas depois de irem para o hospital também não podem regressar a casa.

 

Era uma vez uma sociedade podre num país chamado de Portugal.

País de ladrões e vigaristas

ladrao_318-29527.png.jpeg

 

Hoje, no corredor de um hospital em Lisboa, ouvi que uma senhora, bastante idosa, acompanhada pela sua filha (com cerca de 60 anos e deficiente mental) tinha sido assaltada ao sair do táxi que a levou ao hospital. E por quem é que foi assaltada? Pelo próprio taxista.

 

A história resume-se em poucas palavras - a mãe teve de acompanhar a filha a uma consulta no hospital, foi antes ao multibanco levantar dinheiro e chamou um táxi. Quando chegaram ao hospital, saíram as duas do táxi e a mãe foi ao pé da janela do taxista para lhe dar o dinheiro. Enquanto tirava o dinheiro, o taxista puxou a carteira pela janela, fez marcha atrás e fugiu.

 

Nem a mãe nem a filha tiveram a capacidade de reagir, nem tão pouco conseguiram ver a matrícula ou avisar um dos seguranças presentes no hospital. Limitaram-se a entrar no hospital e a relatar o sucedido a uma auxiliar.

 

Ouvir aquela senhora a lamentar-se do que tinha acontecido, acompanhada pela sua filha que nem conseguia perceber o que tinha acontecido e só chorava porque tinha medo da consulta, deixou-me destroçado.

 

É nestas alturas que perco mais um pouco da fé que tenho neste mundo e concluo que estamos rodeados de ladrões e vigaristas, em todos os estratos sociais e profissões.

Primeiro transplante bilateral de mãos numa criança

hand.jpg

 

Esta semana, no Hospital das Crianças de Filadélfia, foi levada a cabo uma cirurgia impressionante - o transplante de duas mãos num menino de 8 anos, Zion, amputado quando tinha apenas 2 anos devido a uma sepsis grave. A equipa que conseguiu esta proeza, nada menos que 40 pessoas, incluindo cirurgiões, anestesistas e enfermeiros, foi liderada pelo Dr. Scott Levin. A cirurgia, cujo planeamento demorou cerca de 1 ano, demorou 10 horas e foi um sucesso! Foi o primeiro transplante de mãos entre duas crianças geneticamente diferentes, e, correndo tudo bem, será uma extraordinária conquista na vida desta criança.

Fantástico!

Apenas 115 elogios?

-BDeGffBabhcosbxDJNWITc_.jpg

 

Segundo noticiado, foram apresentadas em 2014 perto de 11 mil reclamações de utentes junto da Entidade Reguladora da Saúde. Por sua vez, foram apenas apresentados 115 elogios. Ao longo de todo o ano!

 

Ora eu sei que é muito mais fácil criticar do que elogiar, mas também não é preciso que haja uma diferença tão abismal. Aliás, eu aposto que houve muito mais do que 11 mil pessoas que, ao longo de 2014, tiveram motivos para elogiar e não o fizeram.

 

Afinal, frequentemente o tempo de espera é reduzido, não há uma única razão de queixa quanto aos cuidados de saúde que foram prestados (pelo contrário) e as instalações têm boas condições. Mas tudo isso, infelizmente, parece não ser suficiente para elogiar.

 

Já qualquer porcaria que aconteça, por mais indiferente que seja, merece logo uma reclamação. Não faz sentido!

 

Por isso, da próxima vez que receberem algum cuidado de saúde, e sentirem que foram bem tratados, não se esqueçam de deixar um elogio. É que todos nós gostamos de saber que fizemos bem o nosso trabalho, em vez de receber, somente, reclamações.

Caos nas urgências...

758193.jpg

 

O assunto é recorrente, mas agora tem sido um filão de ouro nas notícias em Portugal. Não há jornal ou telejornal que não dê destaque ao caos nas urgências, aos hospitais velhos e sem condições, e às dezenas de horas de espera para os laranjas (não estou a falar dos militantes do PSD).

 

Porém, e o mais curioso, é que praticamente não se fala no outro lado. Nos profissionais de saúde mal pagos (como praticamente todas as pessoas neste país), que têm de trabalhar nesses mesmos hospitais velhos e sem condições, sujeitando-se a atender dezenas de doentes sem sequer ter tempo para ir à casa-de-banho ou comer (e se forem, não se livram dos olhares maldosos dos doentes que estão à espera, porque só eles é que têm direito a comer, os outros não).

 

Então e os enfermeiros? E os auxiliares? E os médicos? E os outros todos que trabalham nos hospitais? Sem condições decentes para trabalhar, sem um ordenado justo ao fim do mês, principalmente face às horas de trabalho, exigência da profissão e inerente responsabilidade, e ainda mal-tratados porque são um dos principais responsáveis pelo caos nos hospitais?

 

É triste que, em qualquer caso, só seja visto um lado. Os doentes merecem ser tratados, e merecem ser tratados condignamente e o mais depressa possível. Mas os outros, os profissionais de saúde de quem nunca ninguém se lembra, a não ser para criticar porque fizeram assim, ou não fizeram assado, também merecem ser bem tratados e merecem melhores condições para poderem trabalhar.

 

É que a continuar a ser como tem sido, com horas extraordinárias cada vez menos recompensadas e folgas inexistentes, qualquer dia os médicos, enfermeiros e restantes profissionais de saúde, decidem ficar em casa de vez, e aí é que vamos ver o que é que é verdadeiramente um caos nas urgências.


Ah, e ir às urgências porque espirraram uma vez, porque andaram de transporte público e sentem a cara ligeiramente mais quente, ou porque estão com 37,005426 graus, não é o melhor para ajudar no caos das urgências.