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Só entre nós

Só entre nós é um blog para escrevermos sobre aquilo em que pensamos, aquilo de que gostamos ou não, sobre bons e maus momentos, restaurantes fantásticos, viagens fabulosas ou nem tanto... No fundo, sobre tudo.

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Ser pais, na era da pornografia online

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Tradução do artigo publicado no New York Times a 7 de Janeiro de 2015.

Texto de Nick Bilton, ilustração de Anna Parini. Original aqui.

 

Tinha sido mais um longo dia para Eliza, uma mãe de 41 anos, doméstica, que vive em Los Angeles com os seus dois filhos. Levou os rapazes, com 10 e 13 anos, para a escola, cuidou da casa, foi buscá-los, e, por fim, depois de colocá-los na cama, planeou ficar a descansar em frente ao computador.

 

Pelo menos, era isso que ela tinha imaginado fazer. No entanto, Eliza abriu o computador e, à procura de um documento, apareceu-lhe no ecrã "pornografia infantil", como última pesquisa efetuada.

 

"Entrei em pânico", disse Eliza, nome fictício para proteger a identidade dos seus filhos. A sua mente começou a correr em milhões de direções diferentes.

 

Duas noites depois, quando iam para a cama, perguntou ao filho mais velho se tinha procurado por "pornografia infantil" e, se sim, porquê. "Ele disse que estava à procura de pornografia feita para crianças. Explicou, envergonhado, que só queria saber como é que era suposto ser o seu corpo na sua idade."

 

Bem-vindos à adolescência. Há poucos anos, quando os rapazes e raparigas chegavam à idade da curiosidade, espreitavam para uma Playboy, ou outra revista do género.

 

Hoje em dia, as crianças têm livre e fácil acesso a um sem fim de pornografia, incluindo coisas que muitos adultos nem querem ver, como violência sexual, vídeos misóginos e, em casos extremos, pornografia infantil.

 

  

"Assim que ouvi aquilo, disse ao meu filho que da próxima vez que quisesse ver coisas daquelas, devia falar comigo e víamos em conjunto. Mas assim que as palavras saíram da minha boca, percebi o que tinha dito e acrescentei depressa "Não, não, não, isso é uma péssima ideia."

 

Dos pais com que falei, que têm filhos rapazes, todos admitiram que impedi-los de ver pornografia online é impossível. Um pai, por exemplo, disse que instalou um software no computador para filtrar as pesquisas na internet e, logo a seguir, descobriu que o seu filho tinha estado a ver pornografia na casa de um amigo.

 

Falei com investigadores do Centro de Pesquisa de Crimes Contra Crianças na Universidade de New Hampshire, que me mostraram diversos estudos que o Centro tem realizado desde 2000 com crianças que foram expostas a pornografia. Num dos estudos, o grupo concluiu que 42% dos utilizadores com idades entre 10 e 17 anos tinha visto pornografia, e que 66% desses tinham-na visto sem o quererem (exposta em anúncios e páginas abertas involuntariamente em sites de partilha de ficheiros).

 

Outro estudo da mesma Universidade concluiu que 93% dos rapazes e 62% das raparigas foram expostos a pornografia infantil durante a adolescência. Não é preciso ser-se um cientista para perceber que é demasiada exposição para as crianças.

 

Perante isto, restam duas questões para os pais. Primeiro, será que a perversidade da pornografia é má para a juventude atual, potencialmente criando uma sociedade de "desviados sexuais"? E segundo, o que é o que os pais podem fazer para proteger os seus filhos?

 

Não existe uma resposta certa para a primeira questão, apesar de ser um assunto objeto de um intenso debate. Por exemplo, o filme de 2013 "Don Jon", com Joseph Gordon-Levitt a interpretar um homem viciado em pornografia, originou diversos comentários anti-pornografia, incluindo um de uma terapeuta sexual que argumentou que a pornografia online corrompe seriamente a juventude atual. "Adivinho um péssimo futuro no que respeita às relações e ao sexo", afirmou.

 

Porém, outros especialistas que acompanham adolescentes e a sexualidade, dizem que existem mais provas na direção oposta. A gravidez na adolescência desceu acentuadamente nos últimos anos; o número de parceiros sexuais que os adolescentes tem diminuiu; e o número de crianças do nono ano que tiveram relações sexuais também diminuiu, só para citar três exemplos. 

 

"Se só olhar para os indicadores sobre a responsabilidade sexual, não vai ver uma geração de crianças a desmoronar-se.", diz David Finkelhor, autor de diversos livros sobre abusos de crianças e diretor do Laboratório de Pesquisa Familiar da Universidade de New Hampshire. Mas o Dr. Finkelhor admite que os efeitos psicológicos a longo termo nas crianças com acesso a pornografia online ainda estão por ser determinados.

 

O que nos leva à segunda questão. Dr. Finkelhor e outros especialistas com quem falei disseram que o atual fácil acesso à pornografia, especialmente por causa da sua violência e ilegalidade, torna imperativo que os pais eduquem os seus filhos não só sobre sexo mas, principalmente, sobre a pornografia online, e todas as suas características. E uma vez que é tão fácil aceder à pornografia, é importante que esta educação comece cedo.

 

Eis a nova realidade: Graças à internet, as crianças vão ver coisas que provavelmente não deveriam ver. Adolescentes com hormonas ativas vão encontrar-se com os seus amigos e, quando os pais não estiverem a ver, vão procurar e explorar imagens e vídeos cada vez mais impróprios.

 

Por isso, por mais desconfortável e vergonhoso que possa ser para pais e adolescentes, faz parte do ato de educar uma criança nos dias de hoje explicar que a pornografia online, tal como acontece com os filmes de Hollywood, corresponde, muitas vezes, a uma fantasia que pode ser levada aos extremos.

 

Além disso, as crianças devem ser avisadas sobre a extrema agressividade que podem encontrar online. Se os pais não o fizerem, o sentimento de desconforto e vergonha pode ser substituído por algo bem pior.

 

Veja pelo caso da Eliza. A última coisa que quer é descobrir no computador de casa que a última pesquisa foi "pornografia infantil".

 

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