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Só entre nós

Só entre nós é um blog só para nós. Para escrevermos sobre aquilo em que pensamos, sobre o que gostamos, ou não, sobre viagens fabulosas, restaurantes, pessoas que admiramos, ou que nos deixam os cabelos no ar, livros lidos e muito mais.

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Roca Moo, Barcelona

 

A ida ao Celler de Can Roca, em Girona, eleito, no ano passado, como o melhor restaurante do mundo (entretanto em segundo lugar) mostrou-se praticamente impossível atendendo à obrigatoriedade de reservar uma mesa com 11 meses de antecedência. Sim, leram bem, 11 meses.

 

É verdade que existe uma lista de espera (e nós ficámos na lista para 3 dias diferentes), mas quem é que desiste de ir a um dos melhores restaurantes do mundo? Claro que, sem qualquer notícia de desistência nos dias que se seguiram, fomos perdendo a esperança de ir ao Celler.

 

Sem essa possibilidade, decidimos então reservar uma mesa no Roca Moo, restaurante sob a batuta do Chef Juan Pretel, aberto em Barcelona pelos irmãos Roca, responsáveis pelo Celler. 

 

No fundo, e muito resumidamente, trata-se de um Celler de Can Roca II, onde são servidos os clássicos do Celler, com as inovações e criações dos irmãos Roca, tendo já conseguido conquistar uma estrela Michelin (o Celler tem três).

 

Apesar de continuar sem saber como é que é o Celler de Can Roca, a verdade é que a decisão de reservar uma mesa no Roca Moo não podia ter sido melhor. Isto porque o Roca Moo foi, para nós, o melhor restaurante onde já estivemos. Sim, isso mesmo.

 

A única estrela Michelin, e não presença no top 50 de melhores restaurantes do mundo, não fica, na nossa opinião, atrás dos restaurantes Michelin que já experimentámos (Belcanto, em Lisboa, com uma estrela; Vila Joya, em Albufeira, com duas estrelas e 22º melhor restaurante do mundo, sobre o qual escrevi aqui; e Azurmendi, em Larrabetzu, com três estrelas e 26º melhor restaurante do mundo, sobre o qual escrevi aqui). Bem pelo contrário.

 

O restaurante Roca Moo começa logo por surpreender à chegada. Localizado no hotel Omm Barcelona, a alguns metros da receção, e sem qualquer parede a dividir os espaços, o restaurante consegue, mesmo assim, isolar-se do burburinho típico de um hotel, com uma parede envidraçada que dá para um jardim suspenso, e outra feita de estantes, onde constam os livros dos irmãos Roca.

 

 

De resto, e quanto à decoração, a mesma não podia ser melhor, com uma boa escolha de quadros nas paredes laterais e esculturas, todas diferentes, em cada mesa.

 

 

Pormenor igualmente interessante, o facto de todos os pratos apresentados terem um desenho diferente, feito por diversos autores, especialmente para o Roca Moo. 

 

Ainda antes de entrar no restaurante, e enquanto esperávamos pela mesa, tive uma das maiores surpresas da refeição. É que, à entrada do restaurante, estava o próprio Joan Roca. Ele mesmo. Um dos melhores cozinheiros do mundo. Confesso que fiquei tão espantado, que tive que retirar um dos seus livros da prateleira e olhar para ele e para a sua fotografia algumas vezes, antes de ter a certeza que não estava a fazer confusões.

 

 

E não estava. Depois de nos virem chamar para entrar, o Chef Joan Roca, que ultimava uns pormenores com alguns funcionários do restaurante, interrompeu a conversa para cumprimentar-nos. Podia, simplesmente, ter-se afastado um pouco, podia ter decidido ignorar os primeiros clientes do dia, ou podia ter somente olhado para nós. Mas não. E como sabe bem ver que há grandes Chefs que são humildes, dedicados, educados e prezam por satisfazer o cliente.

 

Foi o prenúncio de uma refeição quase perfeita. E digo quase, porque houve uns pequenos pormenores que não foram totalmente do nosso agrado.

 

 

Sentados à mesa, era impossível não ficar vidrado na cozinha totalmente aberta, mesmo à nossa frente, onde o Chef Juan Pretel, e os seus dois Sous Chef, trabalhavam nos pratos que nos iam ser servidos, com uma calma e silêncios incríveis. Mesmo quando as mesas já estavam bem preenchidas, a calma e silêncio reinou sempre. Acho que o Gordon Ramsay teria um ataque se entrasse naquela cozinha.

 

Depois de nos ser apresentada a ementa, optámos pelo menu de almoço, por €45, já com água e copo de vinho. Preço mais do que justo para a qualidade que se seguiu. 

 

 

E a refeição começou com quatro aperitivos perfeitos: bolinhos mexicanos; camarões do rio num pequeno tronco; melão e presunto; e Mojito.

 

 

Todos deliciosos e bem apresentados, com especial destaque para o maravilhoso tronco com camarões do rio. Acho que nunca fiquei tanto tempo a olhar para um prato, antes de comer... Apresentação incrível e sabor ainda melhor.

 

 

Sem esquecer o melão com o crocante de presunto, ou os explosivos Mojitos em gelo.

 

 

Melhor início era impossível. Principalmente, porque em seguida foi servida uma soberba espuma de bacalhau e sua pele frita. A espuma de bacalhau transportava-nos para as águas em que ele é apanhado, dando a pele frita um toque de génio ao prato. A minha vontade foi de pedir para repetir... Mas não podia ser.

 

 

Enquanto aguardávamos pela entrada, foram servidos quatro agradáveis tipos de pão: pão de vinho tinto, de cebola, fumado e caseiro. Nunca tinha provado o de vinho tinto, de que gostei, mas preferi o de cebola.

 

 

Já com a certeza de que o Roca Moo passaria a constar num lugar cimeiro da nossa lista de restaurantes, chegou a vez de uma sopa de amêndoas com sardinhas e falsa cereja. E foi com o prato mais inusitado da refeição que a unanimidade terminou. Se eu não gostei da falsa cereja, com um travo a amêndoa amarga, a minha querida mulher recusou-se a comer as sardinhas. Como resolver? Eu dei a minha falsa cereja, e comi as sardinhas dela. Não tivesse a falsa cereja um sabor a amêndoa amarga e, para mim, seria mais um prato perfeito. Excelente combinação de sabores, com o suave da sopa de amêndoas e o contraste com a intensidade das sardinhas.

 

 

Seguiu-se uma tortilha cremosa de courgete baby, crocante da flor da courgete e chipirones (lulas baby) na brasa, escolhida pela minha mulher. Do que provei, posso dizer que estava encantadora, mas o destaque principal vai para a extraordinária apresentação.

 

Com a cozinha aberta, já me tinha apercebido que estavam a defumar um prato, mas nunca pensei que seria um dos nossos.

 

Mas era e, apesar de não ter conseguido fotografar, a tortilha veio coberta por uma campânula, totalmente preenchida com fumo. Ao levantar a campânula, o fumo foi libertado e espalhou-se pela mesa, e sala, despertando mais um sentido e relembrando Trás-os-Montes. Fantástico.

 

 

Já eu não resisti aos cogumelos chanterelles, pinhões e queijo Vila de Màger sob folhado. Que delícia... Se os cogumelos eram de chorar por mais, o queijo Vila de Màger só veio a ajudar, com um folhado a fechar na perfeição aquele trio. E o prato estava tão bonito, não estava?

 

Entretanto, a cozinha continuava calma, o Souschef já tinha vindo à mesa, bem como o Chef, e todos, desde os empregados à equipa da cozinha, foram sempre atenciosos e simpáticos, descrevendo muito bem as criações servidas.

 

Faltavam os pratos principais e mais perfeição. Sim, já aqui escrevi diversas vezes que os pratos eram perfeitos, e não estou a exagerar.

 

 

Enquanto que eu escolhi uma deliciosa bochecha de vaca, que se desfazia ao mínimo toque, com texturas de abóbora (abóbora confeccionada de mil maneiras diferentes, que dava um ar original ao prato e inúmeros contrastes na boca) a minha querida mulher, depois da tortilha fumada, mostrou ter um dedo de Midas e escolheu o prato do dia. Pela surpresa e pelo sabor.

 

 

Pescada com puré de batata violeta, chips de batata violeta, pak choi e ar de citronela. Deixarei que ela escreva, num futuro post, sobre a sua experiência no Roca Moo, mas posso adiantar que foi o melhor prato de peixe que ela alguma vez comeu. E que eu alguma vez provei. A pescada estava perfeita e o ar de citronela desaparecia na boca, deixando um sabor agradável e refrescante. E a beleza do prato? Só estes empratamentos já deixam qualquer um satisfeito

 

Para terminar, e depois do melhor prato de peixe, a melhor sobremesa que alguma vez comemos num restaurante. 

 

 

Toranja, merengue de morango, campari, crumble e mousse de chocolate branco.

 

Qualquer descrição que eu possa fazer sobre esta sobremesa, nunca fará justiça à maravilha servida. Mas arrisco-me a dizer que o gelado de toranja não podia ser melhor, o merengue de morango dava uma textura necessária para o contraste, juntamente com o crumble, e o campari e mousse estavam deliciosos.

 

 

Num prato, não basta que os sabores individualmente sejam bons. É preciso que a sua combinação faça sentido. E esta fazia todo o sentido.

 

Não satisfeito com este final perfeitos decidi fazer um pedido extra menu. Depois de tanto ter lido sobre a sobremesa Viagem a Havana, era impossível não resistir e aproveitar a minha passagem pelo Roca Moo para experimentá-la.

 

Olhando agora para trás, a sobremesa anterior tinha sido mais do que suficiente para me provar o mérito que Jordi Roca tem. Afinal, Jordi Roca foi eleito como o melhor Chef pasteleiro do mundo em 2014. Mas pensei que a Viagem a Havana iria superar tudo. Mas não superou. E deixou até um certo sabor a desilusão, o que foi pena. Seja como for, valeu pela experiência única e não me arrependo em nada.

 

 

E o que é a Viagem a Havana? É um biscoito de rum, coberto com sopa de lima, granizado de menta e açúcar de cana, acompanhado por um gelado de charuto cubano (cobertura de chocolate e gelado) com cinzas verdadeiras de charuto Partagás série D nº4. Ou seja, é uma verdadeira viagem a Havana, com o rum, o mojito e o charuto. E sim, leram bem. O gelado feito em forma de charuto vinha mesmo com cinzas. Na ponta do charuto e no cinzeiro. Sim, cinzas das verdadeiras. Misturadas com açúcar, mas eram mesmo cinzas.

 

 

Agora vêm os problemas: o biscoito de rum não me convenceu nada, o gelado em forma de charuto só interessava pelo formato, porque o sabor era indiferente, e as cinzas... Bem, confesso que ainda não sei se gostei ou não. Pelo aspeto do prato quando terminei, sem qualquer traço de cinzas, qualquer um diria que eu tinha adorado. Se tinha comido tudo, não haveria dúvidas. A questão, é que as cinzas sabem a isso mesmo. Cinzas. E eu não conseguia deixar de pensar que estava a lamber um cinzeiro. Mais docinho do que seria normal, mas era um cinzeiro.

 

Conclusão, se querem comer algo único, não tenham vergonha em pedir a Viagem a Havana (€11), mesmo que não conste do vosso menu. E tentem desfrutar desta experiência.

 

 

Porque o fim, nestes restaurantes, nunca é bem o fim, com o café (bom) vieram três bons complementos, onde se incluía um macaron e ferrero rocher caseiro.

 

Como já deu para perceber pelo post, era difícil termos saído do restaurante Roca Moo mais satisfeitos e com maior certeza de que regressaremos. Quantas vezes nos forem possíveis. Por isso, se passarem por Barcelona, não deixem de visitar o Roca Moo, sendo preferível fazer uma reserva com alguns dias de antecedência.

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