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Só entre nós

Só entre nós é um blog só para nós. Para escrevermos sobre aquilo em que pensamos, sobre o que gostamos, ou não, sobre viagens fabulosas, restaurantes, pessoas que admiramos, ou que nos deixam os cabelos no ar, livros lidos e muito mais.

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Restaurante Leopold, Lisboa

 

Conceito

 

Comecemos pelo conceito do restaurante Leopold, em Lisboa, que foi o que mais me motivou a visitá-lo - não há fogão nem exaustor. Todos os pratos são confecionados a vácuo, com a ajuda de um Roner, ou através de outras técnicas de culinária que não passam pela utilização de um fogão, o que permite conservar o sabor e nutrientes dos produtos. Produtos estes que são criteriosamente escolhidos pelo Chef, como, por exemplo, os legumes que são quase todos oriundos de um produtor biológico da zona da Arrábida.

 

 

Estamos, portanto, perante um restaurante experimentalista, onde Tiago Feio, ex Sous Chef do (muito bom) restaurante Largo, no Chiado, brinca com as texturas e técnicas de confeção atrás de um balcão de mármore e à vista de todos os clientes.

 

Espaço e localização

 

Para além do experimentalismo, a palavra que melhor caracteriza este restaurante é intimismo. Existem apenas doze lugares e duas pessoas a trabalhar: o Chef, atrás do balcão, e a sua simpática mulher que atende às mesas.

 

 

O espaço, uma antiga padaria, é bastante interessante, apesar da sua reduzida dimensão. O teto antigo trabalhado é bonito, as loiças das Caldas a uso combinam bem como o restaurante, e uma ampla janela dá para a Rua de S. Cristóvão, na Mouraria. 

 

 

 

 

 

 

Comida

 

A comida servida era boa e saborosa, no entanto pecava pela falta de originalidade e simplicidade dos pratos.

 

 

Para entrada, escolhemos primeiro o Pão alentejano, broa de milho e económico, com queijo fresco de cabra aromatizado com lima. O pão era bom, com a escolha interessante do tradicional "pão doce" transmontano, económico, mas o queijo, apesar de agradável, era demasiado adocicado.

 

 

Em seguida veio um Ovo cremoso cozido em baixa temperatura com cogumelos shitake e sementes de trigo crocantes. Se o crocante das sementes de trigo resultava na perfeição com o ovo, e os cogumelos eram saborosos, a pimenta utilizada era excessiva, e demasiado forte para muitos, e a clara do ovo estava praticamente crua (coitado do Chef Cordeiro se fosse ao Leopold e lhe servissem uma clara assim). Algo inaceitável para alguém na posição do Chef Tiago Feio e que tinha todo o tempo do mundo para esperar pela clara perfeita (éramos os únicos clientes).

 

 

Depois das duas entradas, optámos pelo Bacalhau com cuscos transmontanos feitos à mão, cebola com vinho tinto, grelos e folhas de couve. O bacalhau, com o seu ponto de cozedura perfeito, foi o ponto alto da noite, mas, os restantes elementos, não estavam à altura do bacalhau. Principalmente os cuscos transmontanos, que tinham de ser bem envoltos no azeite de boa qualidade para saberem bem.

 

 

Antes das sobremesas, veio um Bife da vazia alta (carne dos Açores) braseado com maçarico, rabanetes, rúcula e manteiga de ovelha de Azeitão. A opção do maçarico foi interessante, porém, o tempo que a carne precisou de repousar quebrou o serviço, e o ponto apresentado era demasiado mal passado para muitos. Apesar disso, a carne era verdadeiramente deliciosa, tal como o prato no geral, apesar de não considerar como adequados os acompanhamentos escolhidos. Para quem, como eu, come bem, escolher um bife acompanhado por rabanetes e rúcula é manifestamente insuficiente.

 

 

Para tentar salvar a refeição, escolhi o saboroso, mas nada original, Creme de banana com areia de canela e queijo de São Jorge. Sem querer parecer injusto, parecia papa de banana para bebé, com bolacha moída com canela ao lado e lascas de queijo por cima.

 

Destaque final para a apresentação bonita e cuidada dos pratos.

 

Serviço

 

O facto de Tiago Feio querer experimentar e inovar, e de não ter ninguém que o ajude na cozinha, faz com que o serviço seja demasiado demorado. Felizmente fomos, durante praticamente toda a refeição, os únicos clientes do restaurante, porque, se o restaurante estivesse cheio, confesso que não sei como é que o Chef conseguiria dar conta do recado em tempo considerado aceitável.

 

Chef

 

Num restaurante minúsculo como o Leopold, com o Chef a dois metros dos clientes, seria lógico que o Chef viesse à mesa, falasse com os clientes, perguntasse se tinham gostado da refeição... Enfim, seria expectável que fosse criada uma "relação" entre Chef e clientes atenta a dimensão do espaço e, no nosso caso, a falta de outros clientes.

 

 

Porém, isso não aconteceu. Pelo contrário. Todos nós temos dias menos bons e quero acreditar que Tiago Feio não é sempre assim, mas na noite em que fomos jantar, o Chef abriu a boca apenas para cumprimentar e dizer boa noite, sempre com uma cara sisuda. Tal falta de conexão não ajudou em nada à experiência de jantar no Leopold. Nem no final da refeição teve a preocupação de saber se tínhamos gostado...

 

Outros pormenores

 

- O restaurante abre as suas portas às dezanove horas e nós reservámos para as vinte. No entanto, acabámos por chegar mais cedo à Mouraria. Como já aconteceu noutras situações, decidimos passar mais cedo no restaurante o que, normalmente, é visto com bons olhos porque os clientes saem mais cedo e ainda podem ter esperança num segundo serviço. Contudo, no Leopold não foi assim. Eram dezanove e trinta quando chegámos ao restaurante, que tinha as portas abertas, e foi-nos dito pelo Chef para regressarmos às vinte porque ele ia jantar. É claro que fizemos o que nos foi pedido, mas foi com enorme espanto que ouvimos aquilo. Então se o restaurante já estava aberto há meia hora, como é que o Chef ainda ia jantar? E se tinham todas as mesas reservadas, e os primeiros clientes só chegavam às vinte, porque é que não fecharam as portas se não queriam ninguém antes das vinte?

 

 

- As portas sempre abertas do restaurante, apesar de úteis para não acumular os cheiros no espaço tão reduzido, são uma péssima decisão. Permitem que os clientes entrem quando eles não querem porque ainda vão jantar; convidam clientes que não têm reserva a entrar; e deixam passar todo o barulho e confusão da rua. Talvez o ideal passasse mesmo pela instalação de um exaustor. 

 

 

- Por incrível que possa parecer (ou talvez não...), o restaurante não tem multibanco. Sim, é verdade. Praticamente todos os restaurantes, desde os mais luxuosos às piores tascas, têm multibanco. E daqueles portáteis. Mas o Leopold não.

 

 

- A água servida é da torneira, passada depois por um purificador de água. Mesmo assim, o sabor deixava muito a desejar... Talvez não seja má ideia repensar esta questão, até porque há muitos clientes que gostam de água mineral...

 

 

- De cada vez que os nossos pratos eram retirados da mesa, a mulher do Chef Tiago Feio ia imediatamente lavá-los. Nada contra, mas, se calhar, quando se tem a cozinha à vista de todos, e a dois metros de distância, talvez não seja a melhor decisão.

 

 

- Toda a comida é para partilhar. Sim, leram bem. Eu escolhi a carne, a minha mulher o bacalhau, mas veio um prato de cada vez e colocado a meio da mesa. Porquê? Porque é essa a filosofia do restaurante (e porque não me parece que o Chef, sem ajuda, consiga servir dois pratos ao mesmo tempo). O maior problema, é que ninguém nos disse isso e a minha mulher não come carne mal passada. Além disso, imaginem que vão com amigos ou conhecidos. Super interessante e moderno andarmos todos a espetar os garfos no mesmo prato, não é?

 

 

- Apesar de todas as críticas aqui escritas, que acredito que possam ajudar a melhorar um restaurante que tem muito por onde melhorar e evoluir, gostei da comida apresentada. Estava, no geral, bem confecionada e saborosa. 

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