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Só entre nós

Só entre nós é um blog só para nós. Para escrevermos sobre aquilo em que pensamos, sobre o que gostamos, ou não, sobre viagens fabulosas, restaurantes, pessoas que admiramos, ou que nos deixam os cabelos no ar, livros lidos e muito mais.

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Homenagem ao Senhor do Adeus

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Não sei como tudo começou. Um dia estava na rua e acenaram-me. E eu acenei de volta.

 

Muitos diziam que era louco. Um milionário louco, que dizia adeus a quem passava de carro. Outros afirmavam que era um artista. Que aquela era uma performance dele. Outros afirmavam que era um desocupado. Que em vez de ficar em casa, ia acenar a desconhecidos. Outros punham em causa a sua orientação sexual, como se isso interessasse para algo ou alguém.

 

Certo é que poucos sabiam o seu nome. Se por acaso se falasse sobre ele, era sempre o maluco de Picoas que dizia adeus a quem passava na rua. Mas aquele "louco" tinha nome. Chamava-se João Manuel Serra, e reza a lenda que era filho de diplomata, vivia dos rendimentos, era extremamente culto e bem educado, viajou muito e a paixão da sua vida era a sua mãe. Quando esta morreu "perdeu tudo" e ficou sozinho no mundo. Para combater a solidão que sentia em casa, passou a sair de casa e a caminhar sozinho pela cidade durante a noite. Apercebeu-se então que havia quem lhe buzinasse e acenasse. "Quem lhe desse as boas noites como se faz nas aldeias.", como afirmou uma vez numa entrevista. Afinal, talvez não estivesse sozinho. Afinal, aqueles desconhecidos poderiam ser seus "amigos".

 

Começou então a acenar às pessoas. Passou por vários sítios de Lisboa onde dizia adeus até optar por ficar apenas em Picoas, onde passou toda a sua infância. A partir de então, era possível vê-lo praticamente todas as noites no passeio a acenar a quem passava e buzinava.

 

 

"Eu preciso disto, é o meu remédio, mas as pessoas que me cumprimentam também precisam de mim", dizia João Manuel Serra, segundo quem o conheceu de perto.

 

E eu só tenho de concordar... Sei bem que muitos dos que acenavam precisavam daquele gesto de João Manuel Serra. Sei que havia quem se sentisse igualmente só e aquele adeus, aquele aceno, era tudo o que precisavam na sua vida.

 

Percebo que muitos não entendam, percebo que muitos achem isto ridículo. Percebo que para muitos ele nunca deixará de ser louco, maluco, doido, desocupado, o que quiserem chamar-lhe. Percebo que muitos chamem o mesmo a quem lhe retribuía o aceno. E percebo ainda que muitos contestem a homenagem que a Câmara Municipal de Lisboa lhe fez. Mas sabem que mais? Não quero saber.

 

Para mim o aceno de João Manuel Serra era um momento especial. Sempre que estava no carro com os meus pais e passávamos por Picoas pedia ao meu pai ou mãe para buzinar. E lembro-me que cheguei a pedir para passarmos de propósito por Picoas para o ver. 

 

Ele dizia-me adeus, e eu dizia adeus. Durante muitos anos, sempre com um sorriso na cara e eu por vezes com olhos humedecidos. Ele ficava contente por dizer adeus e eu ficava contente por poder retribuir. Ali estava ele. Só, mas acompanhado por uma multidão. 

 

É uma imagem triste mas bonita, não é? Louco ou não, João Manuel Serra encontrou uma forma de contrariar a tremenda solidão que sentia ao cumprimentar pessoas na rua. E ao mesmo tempo que colmatava o seu sofrimento, também ajudava os outros a lutar contra o sofrimento, sem fazer mal a ninguém.

 

Estava apenas ali, a dizer adeus e a sorrir. Qual é o mal disto? Interessa assim tanto se era louco? Interessa assim tanto se a sua homenagem é devida?

 

Não me parece. Era apenas um homem que dizia adeus e a quem dizíamos adeus. Um homem só, acompanhado por milhares de pessoas.

 

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João Manuel Serra morreu em novembro de 2010, e pode agora ser recordado através da homenagem que lhe fizeram em Lisboa, na praça do Saldanha. Se puderem, passem por lá. E se tiverem coragem, digam adeus a alguém. 

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