Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Só entre nós

Só entre nós é um blog só para nós. Para escrevermos sobre aquilo em que pensamos, sobre o que gostamos, ou não, sobre viagens fabulosas, restaurantes, pessoas que admiramos, ou que nos deixam os cabelos no ar, livros lidos e muito mais.

Só entre nós

Só entre nós é um blog só para nós. Para escrevermos sobre aquilo em que pensamos, sobre o que gostamos, ou não, sobre viagens fabulosas, restaurantes, pessoas que admiramos, ou que nos deixam os cabelos no ar, livros lidos e muito mais.

Fujam - Terramoto em Lisboa

 

 

Há dois anos atrás, um familiar próximo, que tenho em muita consideração atendendo a sua inteligência e percurso profissional, e que se move entre pessoas de muito poder em Portugal, avisou-me que, no dia seguinte, ia haver um terramoto de grandes dimensões em Lisboa, com características e grau de devastação semelhante ao de 1755. A informação tinha sido prestada por uma grande amiga que trabalhava num departamento de geologia qualquer (se não me engano), que tinha estudado as movimentações sísmicas recentes e chegado a essa conclusão. Segundo a mesma, era possível antever sismos com uma antecedência de um ou dois dias (apesar de normalmente se achar o contrário), e a previsão do sismo em Lisboa de grandes dimensões já tinha sido difundida pelos mais altos cargos de governação portugueses. A pedido destes, a informação deveria manter-se confidencial, para não gerar confusão e pânico entre a população.

 

Sim, eu sei, parece a sinopse de um filme, mas, infelizmente, foi mesmo verdade. A notícia foi transmitida a esse meu familiar próximo, porque, apesar da confidencialidade, a amizade entre os dois era mais importante, e esse familiar, acompanhado pela mulher, filhos e outros familiares fugiram de Lisboa um dia antes do anunciado terramoto, rumo ao norte do país, onde, aparentemente, os efeitos não se iriam sentir com tanta intensidade.

 

Não obstante a aparente veracidade da afirmação, conjugada com a fuga de pessoas minhas conhecidas e próximas, e a existência de um estudo do início do século que prevê um terramoto dessas dimensões em Lisboa até 2050, mantive-me quieto em Lisboa e fui trabalhar normalmente no dia seguinte, tal como a minha mulher.

 

É lógico que ainda pensei no assunto várias vezes ao longo do dia e temi pela segurança de quem me era mais importante. Mas tentei passar o dia o mais tranquilamente possível.

 

Como já sabem, não houve qualquer terramoto em Lisboa há dois anos atrás. Ou melhor, até pode ter havido, como há praticamente todos os dias, mas são tão insignificantes que não são sentidos pela população.   

 

O pior de tudo, é que ainda hoje me arrependo de uma coisa. De ter contado ao meu colega mais velho de trabalho. E porquê? Porque passei por maluco. Eu até tinha pensado em não contar nada a ninguém, até porque, no fundo, estava convencido de que não iria acontecer nada, mas não resisti a contar ao meu colega.

 

É claro que a cara dele demonstrou logo o que estava a pensar - que eu não poderia estar bem da cabeça. E, sendo sincero, ele tinha todos os motivos para isso. Senão vejamos: eu estou a anunciar uma desgraça iminente na cidade, que vai matar dezenas de milhares de pessoas, mas estou calmamente a trabalhar. À macho! Vem aí um terramoto que vai destruir tudo, mas eu sou forte! Aliás, venha o terramoto que eu dou cabo dele! Eu até estou com vontade de sentir a terra a tremer, porque a experiência no museu de história natural de Londres não foi suficiente!

 

E eu sei que estou para aqui a dizer que os meus familiares fugiram, que a informação é confidencial e blá blá blá whiskas saquetas, mas eu não quero saber disso para nada. Mesmo assim, e apesar de tudo, decido avisar os outros. É lógico que ele deve ter pensado que eu estava maluco, apesar de não o ter dito. Deve ter dado uma credibilidade estar em Lisboa à espera do terramoto...

 

E mesmo que houvesse um terramoto em Lisboa, do que é que ia adiantar estar a contar ao meu colega, se íamos continuar a trabalhar normalmente? O prédio onde trabalhamos é praticamente da mesma altura que o terramoto de 1755. Ou seja, é um caixão vertical no caso de um terramoto. Por isso, estava com medo do quê? Que ele se viesse queixar, depois de morto? "Ah meu grande sacana que tu me saíste! Sabias que vinha aí um terramoto e ficaste caladinho que nem um rato!" Pois...

 

A juntar a isto, só contei sobre o terramoto ao meu colega. Ou seja, não contei nada aos outros nem à nossa secretária. O que também é muito bonito de se fazer. Vou contar só àquele e, se por acaso ele decidir fugir ao saber da notícia, eu vou logo atrás e que se lixem os outros!

 

Por outro lado, ainda bem que não contei a mais ninguém! Assim, só pareci maluco aos olhos de um.

 

Por fim, nunca cheguei a confrontar os meus familiares, que fugiram com o rabo entre as pernas, no dia seguinte. Já bastou a vergonha que devem ter sentido por terem andado a avisar meio mundo para fugir de algo que nunca chegou a acontecer.

 

Lição a retirar - se ouvirem, de alguém em que confiam, que vai haver alguma desgraça, só façam uma de duas coisas: fujam e salvem-se, ou não fujam e não contem a ninguém.

{#emotions_dlg.blink}

2 comentários

Comentar post