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Só entre nós

Só entre nós é um blog só para nós. Para escrevermos sobre aquilo em que pensamos, sobre o que gostamos, ou não, sobre viagens fabulosas, restaurantes, pessoas que admiramos, ou que nos deixam os cabelos no ar, livros lidos e muito mais.

29
Dez15

Fomos ao melhor restaurante do mundo - El Celler de Can Roca

Só entre nós

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Será o melhor restaurante do mundo o melhor restaurante do nosso mundo? Poderá um restaurante, eleito por alguns como o melhor, de acordo com opiniões altamente subjetivas, ser também o melhor restaurante onde estivemos?

 

Era a estas perguntas que eu queria responder, e depois da passagem pelo restaurante Osteria Francescana, eleito como o segundo melhor restaurante do mundo, e sobre o qual escrevi aqui, tinha dúvidas quanto a uma resposta afirmativa.

 

Afinal, o que é magnífico para um, pode ser bom, razoável, mau, ou até péssimo, para outro. E quem é que tem razão? Cada um, como é óbvio. Lá porque milhares de pessoas entendem que um restaurante é fabuloso, não quer dizer que eu ache exatamente o mesmo. Tal como pode acontecer o contrário.

 

Com estas questões em mente, fui então ao El Celler de Can Roca, certo de que não me deixaria influenciar por rankings, tal como aconteceu com a Osteria Francescana, e já com alguma “bagagem” de antemão (vários restaurantes “Michelin” visitados, tanto a nível nacional como internacional).

 

E depois de um magnífico jantar, junto com a mulher da minha vida, a resposta, afinal, acabou por ser positiva. Sim, o El Celler de Can Roca foi o melhor restaurante onde já estive e, como tal, é também o melhor restaurante do meu mundo.

 

Reserva

 

Depois de uma tentativa frustrada em 2014, foram precisos 11 meses de antecedência, e-mails trocados, dias à espera de resposta, e dedos cruzados atrás das costas, para conseguir reservar uma mesa no restaurante para dezembro de 2015. Presumo que as reservas estejam agora ainda mais difíceis do que no início do ano, mas nada como ser persistente e ter alguma sorte. Mesmo que o calendário online indique que não existe qualquer disponibilidade no dia/semana/mês que desejam, não deixem de telefonar, mandar mails e ficar em lista de espera.

 

Irmãos Roca e seus prémios

 

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O El Celler de Can Roca é gerido por três irmãos – Joan, o Chef executivo, Jordi, o Chef pasteleiro, e Josep, sommelier – sendo que todos já conseguiram o feito incrível de ser eleitos os melhores do mundo respetivamente em cada área. Para além disso, em conjunto levaram o El Celler de Can Roca ao topo do mundo gastronómico, com a nomeação como melhor restaurante do mundo em 2013 e agora em 2015 (ocupando o segundo lugar do ranking em 2011, 2012 e 2014).

 

História

 

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A paixão pela cozinha que abrange os três irmãos vem dos seus pais, donos de um restaurante chamado Can Roca (a poucos metros do El Celler de Can Roca). Foi lá que cresceram, no meio de pratos, cheiros e clientes, tendo a mãe, Montserrat Fontané, ensinado os seus filhos a cozinhar com respeito, carinho e generosidade.

 

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O primeiro El Celler de Can Roca abriu em 1986, ao lado do restaurante dos seus pais. Em 1996 foi totalmente renovado e em novembro de 2007 mudou-se para a Can Sunyer, sua localização atual.

 

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A proximidade do restaurante dos seus pais permite que os irmãos Roca, e os seus cinquenta empregados, percorram diariamente os 100 metros que separam o El Celler do Can Roca, para ir lá almoçar. Os irmãos almoçam sempre de pé, em homenagem à sua mãe que passa os dias de pé a cozinhar.

 

Localização

 

Como já referi, o El Celler de Can Roca fica situado na Can Sunyer, em Girona, a aproximadamente uma hora de carro de Barcelona. No nosso caso, optámos por passar uns dias em Barcelona, uma das nossas cidades favoritas, e alugar um carro por um dia. Como íamos jantar, e não queríamos regressar a meio da noite para Barcelona, reservámos uma noite num hotel perto do restaurante. Não faltam hotéis com bons preços.

 

Restaurante

  

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O restaurante está instalado numa magnífica vivenda, com parque de estacionamento gratuito do outro lado da rua.

 

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A entrada faz-se por um portão de madeira e por um pequeno “corredor” que dá acesso a um jardim.

 

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Pelas janelas da casa é possível vislumbrar a cozinha.

 

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As mesas do restaurante encontram-se direcionadas para um pequeno jardim repleto de árvores, separado do restaurante por paredes de vidro.

 

Serviço

 

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O serviço cumpriu com todas as expectativas que se pode ter daquele que é considerado o melhor restaurante do mundo. Educado, prestável, simpático, eficiente e rápido. Destaque para três pormenores:

- À chegada estava à nossa espera uma empregada que falava fluentemente português e que nos serviu e acompanhou ao longo de toda a refeição (tal como nos aconteceu no Azurmendi, sobre o qual escrevi aqui). Pode não ser nada de extraordinário para quem, como nós, não tem qualquer problema com o espanhol, mas é um cuidado que traz conforto e uma sensação de acolhimento especial;

 

- Todos os funcionários disponibilizam-se para dispor os pratos/garrafas para que sejam melhor fotografados. Num mundo em que se fotografa tudo, partilhando-se em seguida com todos, nada como “ajudar” quem quer eternizar os pratos servidos;

 

- Parte do faqueiro utilizado é da marca Cutipol (que para quem não sabe é uma marca portuguesa).

 

Menus

 

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Existem dois menus de degustação. Um de “clássicos” e um “festival”. O primeiro tem o preço de €180 por pessoa, mais €55 pelo acompanhamento de vinhos ao longo da refeição e são 7 pratos (sem contar com as “surpresas” iniciais e finais). O segundo custa €195, €90 pelos vinhos e são 14 pratos.

 

Apesar dos €15 de diferença e do segundo menu ter o dobro de pratos, optámos pelos “clássicos” face aos pratos apresentados. Lendo o rol de pratos em cada menu, não tínhamos qualquer dúvida de quais é que gostávamos mais. Além disso, o menu de “clássicos” permitia, em duas ocasiões diferentes, optar entre um de dois pratos, o que foi perfeito.

 

Como tal, optámos pelo menu de “clássicos”, tendo eu ainda escolhido a seleção de vinhos por Josep Roca.

 

Por curiosidade, a água para acompanhar a refeição custou €5,00.

 

Acompanhamento de vinhos

 

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Não sou pessoa de beber vinho à refeição e, por norma, não costumo pedir vinho nos restaurantes. No máximo, opto por um copo de vinho. Como tal, não posso dizer que sou um grande apreciador e/ou conhecedor, apesar de já ter provado alguns dos melhores vinhos nacionais. Porém, e mesmo assim, decidi escolher o acompanhamento de vinhos. Por duas razões essenciais: a seleção seria feita por Josep Roca, considerado como um dos melhores sommelier do mundo, e já que estava no melhor restaurante do mundo, nada como aproveitar a oportunidade para passar pela experiência completa, casando os pratos com as bebidas consideradas mais adequadas para cada prato.

 

Ora apesar de todos os vinhos servidos serem verdadeiramente bons (há vinhos de que não gosto, ou de que gosto pouco, e no Celler gostei mesmo de todos), considero que a escolha do acompanhamento de vinhos foi um erro.

 

Não pelo vinho servido, como já expliquei, mas por causa da excessiva quantidade que é servida. Foram 6 copos de vinho, 2 flutes de champanhe e 2 copos de licor. Ou seja, 10 copos de bebida alcoólica. E atenção, não era colocado apenas "um ou dois dedos". Os copos eram bem servidos e eu, que não precisava de beber tudo (podia limitar-me a provar) bebi tudo. Como devem imaginar, no fim da refeição o álcool começou a fazer efeito.

 

Jantar

Entradas

 

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O jantar começou com duas flutes de champanhe Albet i Noya “Clàssic” El Celler Brut Rva D.O. Penedès para brindar e acompanhar uma sucessão de entradas que nos deixaram rendidos.

 

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Tudo começou com o mundo. Por baixo de um globo, aberto à frente dos clientes, encontravam-se cinco pequenas entradas, cada uma representativa de um país diferente. O prato tem o apropriado nome de “Comer o mundo”.

 

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Da Tailândia: molho “thai”, frango, coentros, coco, caril vermelho e lima.

 

Da Turquia: tartlete de folha de parra com puré de lentilhas, beringela e especiarias com shots de iogurte de cabra e pepino.

 

Da China: legumes em conserva com creme de ameixas.

 

Do Perú: causa de lima.

 

Da Coreia: pão frito com bacon, molho de soja, kimchi e óleo de sésamo.

 

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Todos cinco estrelas, sem nada de negativo a apontar.

 

Seguiu-se uma linda homenagem aos pais – “Memórias de um bar na periferia de Girona”.

 

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Dando uso ao marcador, foi colocada uma folha que, depois de aberta, representava em três dimensões o restaurante dos pais, Can Roca. É possível ver Joan na cozinha, Josep ao balcão e Jordi a andar de bicicleta. Na “sala”, cinco miniaturas de pratos típicos do Can Roca, reinventados por Joan:

 

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Calamares à romana

Bombom de pombo

Tortilha de batata e cebola

Bacalhau com espinafres e rins

Campari

 

Apresentação, texturas e sabores perfeitos.

 

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Em seguida foi apresentado um trabalhoso e saboroso Crocante de camarão.

 

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E uma oliveira bonsai. Não, a oliveira não era para comer, mas sim as pequenas “azeitonas” que estavam penduradas nos ramos e que são esferas de gelado de azeitona verde. O sabor é bastante intenso, mas é divinal. Até para quem, como eu, não é o maior apreciador de azeitonas.

 

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Numa escultura a representar um coral foi servido uma Ostra ying-yang, com alho negro, e um Ceviche de dourada. Mais uma vez, perfeitos.

 

Para terminar uma sucessão de pratos memoráveis, mais dois que ficarão para sempre na nossa memória, pelos seus sabores fortes e ricos.

 

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Bombom de trufa.

 

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Brioche de trufa.

 

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Antes do início do menu, foi ainda apresentado o tabuleiro de pão, com sete variedades diferentes. Do que foi provado, era tudo muito bom. O tabuleiro foi apresentado sucessivamente ao longo da refeição.

 

Pratos principais

 

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Para começar o menu, foi servido aquele que foi o único prato que não considerei maravilhoso. E apenas por ser demasiado enjoativo. Gelado de espargos brancos e trufa. O gelado sabia efetivamente a espargos brancos e era saboroso, resultando muito bem com as trufas e com os pequenos apontamentos de alho negro, mas teria que ser servida uma quantidade bem mais pequena. Caso contrário, a intensidade dos espargos brancos torna-se enjoativa, tal como aconteceu.

 

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Para acompanhar este prato, foi escolhida uma garrafa de Joh. Jos. Prüm Sonnenuhr 2009 Kabinett V.D.P. Mosel.

 

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Depois dos espargos, nada como um prato que subiu “pata ante pata” até ao top dos meus pratos preferidos - Gamba marinada em vinagre de arroz, com o suco da cabeça, patas crocantes, velouté de algas e pão de fitoplâncton. Sabores fortes e excelentes, com a combinação certeira do crocante das patas.

 

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A acompanhar, um copo de Rocallís 2010 D.O. Penedès.

 

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Depois de um prato perfeito o que é que há? Mais um ao mesmo nível. Linguado na brasa com cinco molhos - de azeitonas verdes, erva-doce, pinhões, bergamota e laranja. O linguado estava no ponto e os molhos tanto resultavam bem isoladamente, como todos misturados num único e explosivo molho.

 

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Sasserra 2003 D.O. Penedès.

 

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Bacalhau com gnocchis de batata, terrina de brandade e sames de bacalhau. Quando um prato é fabuloso, pouco há a dizer, ou neste caso a escrever. Por isso, limito-me a dizer que estava fabuloso.

 

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Para acompanhar, um copo de Nelin 2008 D.O. Qa Priorat.

 

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Para terminar os pratos salgados do menu, era exigível mais um prato perfeito. E tal foi conseguido com um Leitão à Rioja. O leitão estava delicioso, com a pele crocante, e era magnificamente acompanhado por sabores adocicados em pequenos apontamentos - pêra com canela, mirtilos com baunilha, laranja com cravo-da-índia e alcaçuz com cacau e pêra.

 

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Pedro Balda V.S. 2011 D.O. Ca. Rioja.

 

Sobremesas

 

 

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Entrando no campo das sobremesas, foi apresentada a Sobremesa láctea, composta por doce de leite, gelado de leite de ovelha, espuma de coalhada de ovelha, iogurte de ovelha e goiaba, tudo escondido por uma nuvem de algodão doce. A sobremesa não foi novidade para mim (que já a tinha pedido no Roca Moo, aqui), mas isso não retirou qualquer brilhantismo à mesma.

 

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Para acompanhar, Càligo Essència 2010 D.O. Penedès.

 

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Por fim, uma Anarquia de chocolate, onde o chocolate era o principal ator, como seria de esperar, servido com texturas diferentes.

 

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Para acompanhar, dois copos. Um de Café Panamá Geisha e outro de PX La Cañada D.O. Montilla Moriles.

 

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A refeição não estaria completa sem o “mítico” carro de mignardises, ao estilo de Willy Wonka. Foi-nos dado a escolher quais as mignardises que queríamos, mas como foi difícil escolher, optámos por escolher todas.

 

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Sempre foi mais fácil.

 

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Quando pensava que a refeição já tinha terminado, foi servido um bolo para comemorar uma data especial. Surpresa muito bonita (e deliciosa) que fechou com chave de ouro uma refeição perfeita.

 

Conclusão

 

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Tal como afirmei no início deste longo post, face ao serviço, espaço e comida apresentada, este foi o melhor restaurante onde já estive. Por acaso (ou talvez não), este é o melhor restaurante do mundo, mas penso que é importante deixar claro que a votação não influenciou esta conclusão.

 

A meu ver, os irmãos Roca conseguiram algo único e especial, muito graças à ligação que têm e ao facto de se entenderem e conhecerem tão bem, e conseguem passar para quem os visita isso mesmo.

 

Perante tudo isto, a minha votação não poderia ser outra que não um perfeito 10.

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