Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Só entre nós

Só entre nós é um blog só para nós. Para escrevermos sobre aquilo em que pensamos, sobre o que gostamos, ou não, sobre viagens fabulosas, restaurantes, pessoas que admiramos, ou que nos deixam os cabelos no ar, livros lidos e muito mais.

Só entre nós

Só entre nós é um blog só para nós. Para escrevermos sobre aquilo em que pensamos, sobre o que gostamos, ou não, sobre viagens fabulosas, restaurantes, pessoas que admiramos, ou que nos deixam os cabelos no ar, livros lidos e muito mais.

Dizem que é um pediatra polémico...

 

No entanto, e só entre nós, acho que Carlos González é, essencialmente, um homem inteligente. E porquê? Porque consegue ser visto como o criador de uma filosofia já inventada há muito tempo, e largamente desenvolvida e defendida por tantas pessoas, conseguindo, com isso, esgotar edições de livros (não só em Espanha), dar entrevistas em todos os meios de comunicação e, consequentemente, aumentar consideravelmente a sua conta bancária, com filas de pais à porta do seu consultório.


Não acho nada disto errado. Pelo contrário. Comecei por escrever que o acho um homem inteligente. E quem me dera ter um décimo da sua astúcia para fazer o que ele fez. Já aquilo com o qual não concordo, é a filosofia que ele defende e que lhe tem dado tanto dinheiro e fama. 


Não gosto, nem nunca gostarei, de textos que recolhem frases isoladamente ditas por pessoas e, com isso, deturpam o seu verdadeiro significado. Porém, neste caso, a verdade é que Carlos González defende essencialmente:

Que as crianças devem dormir na cama dos pais, se assim quiserem;

Que não se deve bater nem castigar as crianças;

Que não se deve obrigá-las a comer, nem sequer verduras ou outros alimentos saudáveis;

Que não se deve dizer que não, mas dar amor e colo.


Claro que Carlos González, o intitulado pediatra polémico, desenvolve cada um destes temas e justifica-os, nalguns casos com alguma (muito pouca) razão. Para quem quiser, basta uma simples pesquisa na internet para ler tudo. Ou até podem juntar-se ao grupo de portugueses que aguarda, ansiosamente, pelos livros dele, que estão entretanto esgotados. No entanto, sem olhar para o resto, fará mesmo sentido tratar as crianças como adultos e não lhes dizer que não? Resultará num adulto saudável, bem educado e adaptado à sociedade?


Nalguns casos, até posso acreditar que sim. Mas será uma franja minúscula da sociedade. Este pediatra até pode ter acompanhado o crescimento de milhares de crianças nas suas consultas, mas não me conseguem convencer que é bom e correto o seguinte:


São dez da manhã de um sábado e a criança, de oito anos, está na cama dos pais, a dormir, descansadamente. Às dez e meia, ele teria aula de inglês, algo que o beneficiaria tremendamente no seu futuro pessoal e profissional. Os pais, que deixaram de ter intimidade graças ao filho sempre deitado na sua cama, tentam acordá-lo e fazer ver que já é tarde. Claro que antes de o acordarem discutiram entre eles, porque o correto seria que ele acordasse quando quisesse, e não se regulasse por despertadores. Porém, a aula de inglês é verdadeiramente importante. Até porque as notas na escola têm sido uma miséria. É que, por mais que lhe expliquem que é importante estudar, o miúdo continua a não querer saber da escola, e as negativas acumulam-se. Mas ele vai aprender com a vida, defende Carlos González.


Com muita calma, e algum medo aliado, os pais acordam o pequeno anjo, que se vira ao contrário, diz que tem sono e que não quer ir à aula de inglês. O que fazer? Recordar os ensinamentos desta filosofia e deixá-lo a dormir. Afinal, as crianças devem ser tratadas como adultos. E nós nunca iríamos obrigar um adulto a levantar-se da cama para fazer uma coisa que não queria fazer. Mesmo quando isso significava faltar às aulas, pagas com alguma dificuldade pelos pais, que só querem o melhor para o filho.


Por volta das doze horas, o pequeno anjo de oito anos decide acordar. Cheira ligeiramente mal, porque a noite foi quente e o pijama ficou todo transpirado, mas não se pode contrariá-lo e mandá-lo tomar banho. Fazem isso a um adulto? Não. O almoço é ele que escolhe. McDonald's, claro. Bic Mac, lógico. Menu gigante, evidentemente. Não vale a pena obrigar a criança a comer comida saudável. O que é que importa mais? A comida saudável que uma criança come enquanto cresce, ou a comida saudável que se come ao longo da vida? Quem pergunta é o próprio Carlos González, que aqui se esquece do que aprendeu na escola, universidade, e vida, e desvaloriza a comida saudável no crescimento de uma criança. Segundo ele, os gostos adquirem-se com a idade e a criança vai aprendendo que a comida saudável é melhor com o tempo. Claro. Quando tiver diabetes e cento e vinte quilos é que vai aprender. Mas não há problema. O importante é não dizer que não.


A roupa? Foi a que ele escolheu. Mal seria se lhe dissessem que ficava mal conjugar meias verdes com calças vermelhas e uma t-shirt amarela. Parece a bandeira de Portugal, mas talvez isso não seja mau, atendendo à proximidade do Mundial.


Depois do almoço, vão visitar os avós dele. Pequeno anjo, cheio que nem um ovo, assim que chega a casa pede chocolate, coca-cola e vinte euros. Os avós, já imbuídos nesta filosofia, apesar de não a terem utilizado quando educaram os seus nove filhos, tratam logo de atender a todos os seus pedidos. Quando chega o primo, o miúdo dá-lhe uma estalada e um murro na cara. O que fazer? Tratá-lo como adulto. Alguma vez iriam pôr um adulto de castigo? E bater numa criança? Nem pensar! Deus nos livre! Solução - ir falar com ele e perguntar-lhe porque é que ele bateu no primo. É isso que defende esta filosofia. "Bati-lhe porque ele é parvo.", resposta do miúdo, que é aceite por todos, até pelo coitado do primo, sentado a um canto com ranho a escorrer pelo nariz, de tanto chorar, e um saco de ervilhas congeladas encostado à cara esmurrada.


Regressados a casa, o pequeno texugo gordo revela estar um pouco triste. "O que é que se passa?", perguntam os pais. Se um adulto está triste, pergunta-se o que é que se passa e tenta-se ajudar. O mesmo com uma criança. "O Tozé tem um jogo novo da PlayStation e eu não..." Solução? Dar-lhe colo e muito amor e prometer-lhe o jogo para o dia seguinte. Ou até para aquela noite, se ainda houver centros comerciais abertos. E, claro, depois tem de se permitir que o miúdo jogue o jogo novo durante toda a noite, em vez de dormir.


Afinal, não se lhes pode dizer que não. Faz sentido, não faz?

{#emotions_dlg.blink}

4 comentários

Comentar post