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Só entre nós

Só entre nós é um blog só para nós. Para escrevermos sobre aquilo em que pensamos, sobre o que gostamos, ou não, sobre viagens fabulosas, restaurantes, pessoas que admiramos, ou que nos deixam os cabelos no ar, livros lidos e muito mais.

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Criopreservar (ou não) as células do cordão umbilical

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Este continua a ser um tema polémico. Confesso que nunca me interessou muito explorar o assunto, até que, já grávida, e perante os panfletos de várias empresas deliberadamente deixados na sala de espera do hospital onde vou às consultas, comecei a interessar-me pelo assunto. Assim, a priori, sempre pensei que, caso engravidasse, seria lógico optar por criopreservar as células estaminais do cordão umbilical - se existe deve ser bom; se é bom, quero isso para o meu filho!

 

Felizmente, tanto eu como o meu marido, somos pessoas esclarecidas e suficientemente inteligentes para não tomarmos decisões importantes de ânimo leve. Por isso, quando começámos a ler aqueles panfletos cheios de benefícios, decidimos imediatamente começar a pesquisar sobre o assunto.

 

A internet é um excelente meio ao nosso alcance para pesquisar e obter informação sobre (quase) tudo. Claro que, por vezes, não é fácil separar o trigo do joio... Na blogosfera, cheia de pré-mamãs ou recém-mamãs pagas pelas empresas que vendem este produto, encontramos imensas opiniões a favor desta causa. O argumento comum a todas elas é, no essencial, o mesmo: não sei bem se serve para alguma coisa ou não, mas, na dúvida, optei por fazer! Quase sempre, apoiadas no chavão que estas empresas tanto gostam de usar: "é como fazer um seguro de vida biológico para o seu filho"... E é precisamente por causa deste tipo de argumentos, muito pouco fundamentados em evidência científica, que a Comissão Nacional de Ética para as Ciências da Vida já condenou o negócio feito em Portugal por estas empresas, que atualmente já movimentam mais de 37 milhões de euros por ano.

 

Mas passemos aos factos. Em França e em Itália são proibidos os bancos privados de células estaminais do cordão umbilical. Felizmente, têm bancos públicos a funcionar bem, que são muito mais úteis para a população em geral que os bancos privados. Em Portugal, infelizmente, excetuando as grávidas seguidas no Hospital de São João, no Porto, a única opção disponível para criopreservar são mesmo os bancos privados, com todas as suas limitações. No Portal da Saúde encontramos uma boa síntese sobre o atual estado da arte a este respeito. Vou tentar resumir a informação do Instituto Português do Sangue e da Transplantação (IPST) que, a meu ver, é bastante clara e objetiva.

 

Quando estamos perante o parto de um bebé saudável, cujos pais pretendem usar as células do cordão para tratar um filho mais velho doente, no imediato, não existem dúvidas. Esta prática é, de resto, comum em Portugal, sempre que justificável. E, nestes casos, a realização do transplante não acarreta quaisquer custos para as famílias.

 

A questão coloca-se, isso sim, perante a venda de um produto para uso no bebé que está para nascer, ou mesmo num irmão, num futuro mais ou menos próximo (as células podem ser guardadas até um prazo máximo que ronda os 25 anos, sem garantia de que possam ser úteis ou suficientes ao fim de tanto tempo), sem nenhuma indicação terapêutica no momento da colheita. É aqui que reside o problema: será útil recorrer a este tipo de serviço?

 

Bom, o uso destas células teria como principais indicações o tratamento de doenças genéticas e neoplasias do sangue (leucemias e linfomas). No caso de uma doença genética, não há qualquer interesse em usar células do próprio, uma vez que transportariam os mesmo genes doentes. No caso de leucemias e linfomas, alguns têm um fundo genético, logo estariam afastados à partida desta hipótese de tratamento; outros poderiam ser eventualmente tratados com o transplante das células criopreservadas. O que acontece, na prática, é que na maioria dos casos é muito mais eficaz o transplante de células de outro indivíduo que não do próprio. Então, seria interessante termos um banco público universal que pudesse fazer a recolha das células de todos os cordões para poderem ser utilizadas em pessoas compatíveis quando fosse necessário. Infelizmente, em Portugal, o único banco público a funcionar atualmente fica no Hospital de São João,  como já disse, e apenas pode fazer a colheita nos cordões dos bebés que nascem lá... As indicações para autotransplante (de células criopreservadas) em idade pediátrica, nos dias de hoje, são, portanto, limitadas a alguns casos de linfoma recidivado, anemias aplásticas graves e tumores sólidos selecionados, nomeadamente neuroblastomas, sarcoma de Ewing, retinoblastoma e alguns tumores do sistema nervoso central. De acordo com as estatísticas disponíveis, isto resume-se à realização de quatro transplantes por cada milhão de unidades conservadas, sem qualquer garantia de sucesso.

 

O potencial de utilização destas células noutras áreas, como em doenças cardíacas, neurológicas ou na diabetes, é meramente especulativo e, à luz dos conhecimentos atuais, não justifica a criopreservação.

 

Perante estes dados, a relação custo/benefício deste tipo de serviço (o mais barato ronda os 1000 euros) é muito pouco favorável e não justifica a criopreservação de células do cordão umbilical, à luz dos conhecimentos atuais. O próprio IPST esclarece, em jeito de conclusão, que "o potencial benefício, para o próprio ou um irmão, é na verdade, no momento atual, quase residual e geralmente inexistente".

 

Aqui entre nós, fazer só por fazer, gastar só porque podemos, não faz parte da nossa forma de estar na vida. Não há evidência científica suficiente, não fazemos.

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