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Só entre nós

Só entre nós é um blog só para nós. Para escrevermos sobre aquilo em que pensamos, sobre o que gostamos, ou não, sobre viagens fabulosas, restaurantes, pessoas que admiramos, ou que nos deixam os cabelos no ar, livros lidos e muito mais.

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A perfeição no restaurante LOCO

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O restaurante LOCO do Chef Alexandre Silva estava na minha lista de restaurantes a não perder desde o dia em que ouvi falar nele pela primeira vez, bem antes da sua abertura. Primeiro, porque era um projeto do Chef Alexandre Silva, o que só por si já motivaria uma visita, e segundo pela ousadia que o LOCO apresentaria em Lisboa.

  

O facto de só servir jantares e a existência de apenas menus de degustação "às escuras" fizeram com que a nossa visita fosse adiada, mas, como se costuma dizer, mais vale tarde do que nunca e, neste caso, valeu muito. Mesmo muito.

 

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Não critico a decoração ou elementos decorativos alegadamente copiados de outros restaurantes, nem me interessa se há pratos/técnicas/surpresas copiadas de outros colegas. O que é que é verdadeiramente original hoje em dia? Quem é que copia o quê? Existe mesmo alguma cópia? Ou faz sequer sentido que se fale em cópia? Não me interessa e não vou discutir isso aqui porque, na realidade, o que verdadeiramente interessa é que no nosso país não havia um restaurante assim. Não havia ninguém como o Chef Alexandre Silva a apresentar um produto tão diferente e inovador. E isso fazia muita falta.

 

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Alexandre Silva foi arrojado com a decisão de servir apenas menus de degustação (a meu ver uma decisão bastante acertada), com a decoração do espaço (que venceu um prémio internacional), com toda a criatividade que imprimiu nos pratos (e forma de servir) e, por isso, está de parabéns. Pela coragem e pelo resultado final tão bem conseguido.

 

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Mas também está de parabéns porque não tem medo de alterar os pratos que serve. Os pratos que hoje descrevo provavelmente já não serão os mesmos dentro de dias. E isso é extraordinário. Caso contrário, qual o interesse em voltar várias vezes? Esse é um problema de alguns excelentes restaurantes portugueses, que aqui não acontece.

 

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Temos, portanto, uma decoração excecional, menus de degustação altamente criativos, serviço profissional e extremamente simpático, uma cozinha aberta, um Chef presente que vai constantemente à mesa servir os pratos, muito sabor em tudo o que foi servido, excelente apresentação dos pratos, loucura q.b., uma cozinha praticamente maior do que a sala (com apenas 20 lugares) onde todos circulam sem percalços... O que é que falta no LOCO? Acho que nada. Apenas gostava que fossem servidos almoços. Mesmo que apenas a um dia, como num sábado. Fica a dica, Chef?

 

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Passando então ao jantar, é impossível, depois de observar a maravilhosa oliveira suspensa na entrada (pesando quase meia tonelada), não dar de caras com o couvert (igualmente) suspenso sobre cada mesa. Chama-se "carasau" e trata-se de um pão muito fino e crocante, típico da região da Sardenha, em Itália. 

 

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Mas antes de o apanhar, é preciso escolher qual o menu. 14 ou 18 momentos, ambos servidos em 4 andamentos - snacks, pão, pratos principais e sobremesas. O menu de 14 momentos custa 70€ e o de 18 custa 85€, tanto um como outro sem bebidas incluídas. Para ter uma experiência completa, escolhemos os 18 momentos. Que, importa desde já referir, foram todos servidos a um ritmo muito constante e rápido (tal e qual como nós gostamos) e contrariamente a tanta crítica que já li. É certo que os snacks foram mais rápidos (servidos todos em 19 minutos), mas os outros pratos foram sempre servidos em pouco tempo. Parabéns ao Chef e equipa por isso. 

 

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Mais uma nota antes dos pratos. Aquando de uma reserva, é normal que perguntem se existe alguma alergia ou restrição alimentar, à qual respondo sempre que não. No entanto, quando fiz a reserva no Loco, perguntaram também se havia algum alimento de que não gostasse. A resposta foi não, mas a verdade é que existe sempre uma ou outra coisa que não gostamos ou apreciamos assim tanto. Por isso, depois de falar com a minha mulher, enviei um e-mail a indicar alguns ingredientes que a minha mulher não apreciava e avisei que ela não gostava de carne ou peixe cru. Confesso que estava à espera de algum esquecimento, mas a posterior confirmação por telefone mostrou-me que estava enganado, e a verdade é que o menu da minha mulher teve em consideração os seus gostos, com, por exemplo, toda a carne e peixe a ser confecionada num ponto mais passado. Parabéns novamente pelo cuidado. É também assim que se conquistam os clientes e um restaurante se distingue dos outros.

 

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Voltando então ao "carasau", que deve ser apanhado com gentileza, surpreendeu pelo lado cénico (evidentemente) mas também pela sua textura extremamente fina e sabor agradável.

 

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Seguiu-se um "pastel de bacalhau" (quem diria) com todo o sabor lá presente. Muito bem conseguido e, de olhos fechados, ninguém diria que era outra coisa. 

 

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Ovas de pregado e funcho selvagem - sabor forte e muitíssimo interessante.

 

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Barriga de atum fumada com pickle de tangerina, coberta por pétalas delicadamente selecionadas na cozinha.

 

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Mexilhões com raiz de aipo, funcho e maçã verde - fresco e delicioso.

 

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Pão com chouriço - pão cozinhado a vapor com recheio de chouriço - pão a trazer boas memórias do Azurmendi e um sabor espetacular.

 

Mais um momento "uau " da noite (impossível de fotografar). "Abra a boca e feche os olhos". Cumprindo o pedido, é então servida à boca uma colher com atum, quinoa, puré de limão confitado, molho teriaki caseiro, cebolinho e petazetas. Ou seja, uma explosão de sabores (graças em grande parte às petazetas) fantástica. 

 

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Para finalizar os snacks, foi servida uma cenoura jovem assada no carvão com flor de sabugueiro. E até eu que não aprecio muito cenouras gostei do prato. Boa conjugação de sabores.

 

Depois de umas toalhas refrescantes para limpar as mãos, chega então o momento do pão, tão importante e essencial numa refeição portuguesa. Mas aqui servido de uma forma diferente.

 

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Pão rústico tradicional e pão de centeio e cânhamo. Todos os pães são feitos diariamente no restaurante, vão mudando com frequência, e estes eram excelentes.

 

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Para acompanhar, um incrivelmente bom azeite do Douro,

 

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Três deliciosas manteigas - algas, tinta de choco fumada e manteiga de alho, salsa e pó de cebola;

 

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E um molho de bife servido na frigideira para esquecer as regras e molhar o pão, coisa que não hesitei a fazer e repeti diversas vezes até acabar o pão. Muito muito muito bom.

 

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O terceiro andamento começou com lulas em calda de pés de porco e lingueirão picante - com um toque picante (forte para alguns) e muitíssimo bom.

 

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Ostras da ria de Aveiro, cozinhadas a vapor à mesa (por um minuto), com um molho agridoce e picante de lima kaffir, citronella e malageta.

 

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Excelente "kick" da malagueta em harmonia com o forte sabor a mar. Bravo.

 

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Para dar razão ao trocadilho de LOCO com louco, nada como um "surf and turf" surpreendentemente bom. Carapau com molho de cebola e pato, óleo de hortelã, pó de cebola e malagueta. Quem diria que o carapau e o pato podiam ser "amigos" no mesmo prato?

 

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Seguiu-se um dos pratos da noite. Pesca do dia, e neste dia era corvina, cozinhada a vapor e envolta em folha de bananeira, com caril verde,

 

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Para acompanhar com um crocante de algas.

 

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Prato simplesmente divinal, cheio de sabores intensos mas sem se perder a frescura e suavidade do peixe.

 

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Para tornar este prato ainda mais memorável, foi servido a seguir um copo com uma bebida feita com coco e canja da cabeça do peixe.

 

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Chega a vez da carne e o regresso do pato, com um magret de pato cozinhado por duas horas a 68 graus, com legumes grelhados,

 

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E um cachaço de porco cozinhado por quatro horas com cogumelo.

 

Ambos muito saborosos.

 

Entrando no quarto, e último, andamento, seria de esperar que fossem servidos pratos doces, mas não nos podemos esquecer que estamos no LOCO.

 

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Alga nori com mousse de soja e gel de lima - pré-sobremesa muito bem apresentada e surpreendente por causa da doçura da mousse de soja. Muito agradável, com um sabor a alga a permanecer no fim na boca.

 

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A sobremesa seguinte tinha um delicioso gelado de pêra, chá de camomila e miso.

 

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A última sobremesa é tudo menos uma sobremesa. Aipo granizado e em gelado, caril verde e brioche caramelizado. Bem sei que hoje em dia há quem defenda a escolha de sobremesas menos doces para servir de continuidade a um menu, sem quebrar/chocar demasiado, mas acho que o LOCO foi demasiado longe com esta "sobremesa". Se o objetivo era que se falasse nela, este foi totalmente conseguido. Mas não consigo defender esta sobremesa...

 

O Chef Carlos Fernandes explicou-nos que é um prato que se odeia ou que se ama e que as duas reações são ótimas para ele. E, de facto, a minha mulher odiou e eu adorei. Mas adorei não enquanto sobremesa, mas sim enquanto prato. Não consigo entender a sua apresentação como uma sobremesa, nem consigo conceber este prato como um limpa palato pré sobremesa (muito menos como final de refeição). Tal como tive a oportunidade de explicar ao Chef, vejo este prato como um excelente prato no andamento dos snacks, nunca como sobremesa. 

 

Posso defender a continuidade dos menus, mas uma sobremesa praticamente sem açúcar não. Nota máxima para a loucura, coragem e sabores, mas nota negativa para o momento da apresentação.

 

Seja como for, foi divertido comer este prato, nem que seja pela controvérsia gerada e pela conversa com o simpático Chef Carlos Fernandes.

 

Como já tive a oportunidade de escrever no Instagram e Facebook, foi das melhores refeições dos últimos tempos e, sem dúvida, uma das mais criativas e estimulantes.

 

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Antes de mais um grande momento da noite, o café do LOCO, que já se tornou famoso por ser café de balão.

 

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Um café preparado "in loco", bastante aromático, que resultou de um blend feito por todos os membros da equipa, mas que no sabor deixou um pouco a desejar por não ser tão intenso como seria de esperar.

 

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Para não deixar o cliente triste com a falta de açúcar, surge então um dos momento da noite, com o Chef Carlos Fernandes a trazer à mesa uma caixa de costura antiga, de onde foi retirando uma série de mignardises, enquanto explicava cada uma delas.

 

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Queijadinhas de leite da avó Sofia (bonita homenagem à avó do Chef Alexandre Silva), bolachas de chocolate negro 70%, trufas de chocolate negro 55%, bolachas de ras el hanout (mistura de especiarias marroquinas trazidas pela equipa do restaurante em várias malas com excesso de peso diretamente de Marrocos), choux de canela com creme de limão e um espetacular falso coscorão a trazer o sabor do Natal. Para não estragar a surpresa, não revelo de que são feitos os falsos coscorões, mas é um exercício divertido tentar adivinhar o ingrediente.

 

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Para terminar em beleza, umas magníficas bolas de Berlim com gelado de doce de ovo.

 

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Porém, a refeição só terminou mesmo com a nota de serviço do Chef Alexandre Silva a ser pendurada onde antes estavam os "carasau" para recordação.

 

Não me querendo repetir, esta foi uma das melhores refeições dos últimos meses e das mais surpreendentes que tive oportunidade de experimentar.

 

O Chef Alexandre Silva apresenta uma peça de teatro em quatro atos verdadeiramente perfeita, onde no fim só apetece levantar, bater palmas e pedir "bis".

 

Regressarei, sem qualquer dúvida, principalmente depois de me terem explicado o conceito da base de dados dos clientes onde o restaurante tenta, dentro do possível, não apresentar pratos repetidos aos clientes que regressam. Parabéns pela ideia e esforço.

 

Comentário final apenas para a questão Michelin. Alexandre Silva tem um produto claramente vencedor de uma(s) estrela(s). Será apenas uma questão de tempo e casmurrice do Guia. E não me venham falar na ousadia do restaurante vs conservadorismo do Guia, pois basta ver o caso do DiverXO. E também não pode proceder o argumento de ser um restaurante recente... Se houvesse verdadeira justiça, no Guia Michelin 2017 o restaurante LOCO já teria uma estrela Michelin. Vamos esperar para ver.

 

Pontuação de 0 a 10

Cozinha (50%) - 9,98 - Só não dou 10 por causa da sobremesa final. É um assunto extremamente subjetivo, mas não deixo de entender a sua colocação no quarto andamento. Seja como for, para mim sabia muito bem.

Serviço (25%) - 10 - Chef(s) quase sempre na mesa, a servir e explicar os pratos com atenção e simpatia, e restantes funcionários atentos a todos os detalhes. Não poderia pedir mais.

Ambiente (25%) - 10 - Adoro o estilo, a decoração, as escolhas feitas... Até há vista para a cúpula iluminada da Basílica da Estrela. 

Pontuação final - 9,99

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