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Só entre nós

Só entre nós é um blog para escrevermos sobre aquilo em que pensamos, aquilo de que gostamos ou não, sobre bons e maus momentos, restaurantes fantásticos, viagens fabulosas ou nem tanto... No fundo, sobre tudo.

Só entre nós

Só entre nós é um blog para escrevermos sobre aquilo em que pensamos, aquilo de que gostamos ou não, sobre bons e maus momentos, restaurantes fantásticos, viagens fabulosas ou nem tanto... No fundo, sobre tudo.

A nossa cultura atual exige que as mães sejam tudo, o tempo todo

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O nosso problema - "mamã"

Por Heather Havrilesky, no New York Times

Ilustrações de Anna Kövecses

(Original em inglês, aqui)

 

Quando oiço alguém dizer a uma grávida que ter um bebé vai transformá-la numa nova pessoa, não consigo deixar de imaginar uma meteorologista patologicamente otimista a avisar, enquanto sorri, que vem aí um tornado que vai mudar por completo uma cidade. Ser mãe não a muda assim tanto, ao mesmo tempo que a renova violentamente, apesar de continuar a ser a mesma pessoa por baixo da mudança.

 

No entanto, isto pode ser difícil de lembrar quando professores, educadores, pediatras e estranhos, deixam subitamente de tratá-la pelo seu nome, ou até por senhora, e passam a chamá-la de "Mãe". É certo que vai sentir que é uma nova pessoa - que necessariamente não conhece ou reconhece.

 

A maternidade já não é vista, simplesmente, como uma relação com o filho, um papel que desempenha em casa e na escola, ou até mesmo como uma instituição sagrada. A maternidade foi elevada - ou talvez rebaixada - para o reino do estilo de vida, uma identidade abrangente, com exigências e expectativas que eclipsam tudo o resto na vida da mulher. 

 

"Bando de mamãs à solta?" - Eu e algumas amigas fomos recentemente beber uns copos a um bar, quando um desconhecido presenteou-nos com esta frase. Um bando de mamãs. Essa raça alienígena com carrinhos de bebé, refeições embaladas e protetores solares. A sua expressão sugeriu que era estranho que uma mulher encarregue de levar o filho das aulas de Kumon (instituição de ensino particular) para os jogos de futebol pudesse sair da cidade e beber umas cervejas como qualquer outro ser humano normal. (Em primeiro lugar, como é que ele descobriu que éramos mães? Terão sido os extra-largos copos de cerveja, com MAMÃ! escrito nas laterais que nos denunciou?)

 

Perante aquela atitude retrógrada do "Mad Men", abanámos zangadas as nossas cabeças. Contudo, a verdade é que neste momento em particular da nossa história, uma combinação de excesso de zelo parental, marketing e glorificação do coração e casa persuadiram o público a ver as mães como uma raça estranha, diferente das pessoas normais. Até se pode sentir a mesma pessoa lá no fundo, mas o que o mundo aparentemente vê é uma mulher a arrastar um enorme cordão umbilical.

 

É difícil criticar as pessoas, pois a nossa cultura está cheia de coisas com "mãe" e "mamã": aulas de yoga "Mamã e Eu", manicures "Mamã e eu" e makeovers para "mamãs". Ande pelo mundo com uma criança a tiracolo e não se vai livrar depressa da palavra. Se postar alguma coisa no seu blog sobre ter filhos, passará a ser uma "mamã blogger". Se cortar o cabelo curto, fez um "corte à mãe". Se tiver algumas coisa a dizer sobre o desafio de conciliar vida e trabalho, já faz parte das "lutas de mamãs". Se precisa de um copo depois de toda esta conversa de mamãs, está a ter uma "noite de mãe sem filhos", o que significa que pode tornar-se numa "mãe selvagem".

 

 

"HEY, mães? Mães? Oiçam, mães!" - Estou sentada junto ao campo de futebol, contemplando as nuvens, quando essas palavras causam em mim um calafrio que me percorre o corpo. O treinador de futebol está a caminhar na minha direção com algumas instruções para o jogo do fim-de-semana, mas eu não consigo processar as palavras que saem da sua boca. Mães? Olho para a minha direita e vejo duas mães e um pai. Olho para a esquerda e vejo uma avó, outro pai e uma irmã mais velha.

 

Porque é que esta palavra me irrita tanto quando dita pela pessoa errada? Quando os meus filhos me chamam de "mamã", eu sinto orgulho e felicidade. "Mamã" também é o nome da minha mãe, graças ao facto da minha irmã mais velha me ter envergonhado quando tentei mudar para "mãe". Mas o "mamã" que eu digo à minha mãe, ou o "mamã" que oiço da boca dos meus filhos, é uma palavra privada, uma palavra que define uma relação entre mim e a minha mãe, ou entre mim e os meus filhos. Tal e qual como acontece com a palavra "amorzinho" ou "amor", mas discutivelmente ainda mais íntimo. É uma palavra que parece estranha quando sai da boca de um professor, estranho ou jornalista da televisão.

 

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Você pode adorar ser mãe - e eu pessoalmente não conheço nenhuma mulher que não goste - e, mesmo assim, odiar ser chamada por "mãe" ou "mamã" por alguém que não seja o seu filho. Pode adorar estar rodeada por outras mulheres, ou pais, e partilhar as suas ideias e emoções e experiências, e, mesmo assim, não querer que seja tudo embrulhado com um grande laço de "mamã".

 

Isso enjoa, porque é ao mesmo tempo enjoativo e cheio de contradições. Na TV, filmes e ficção moderna, as mães são frequentemente retratadas como protetoras, mas focadas no trivial, sábias, mas neuróticas, sexy, mas sem sexo, monumentalmente importantes, mas profundamente parvas. 

 

Mesmo para aquelas que continuam alegremente despreocupadas com tais correntes culturais, novas oportunidades para nos fazer sentir que não estamos à altura aparecem em cada esquina. Estamos cercadas por imagens no Facebook de crianças ensolaradas e compotas de pêssegos caseiros, construções de pequenas réplicas da Torre Eiffel com palitos e aulas em casa sobre produtos orgânicos das quintas de Wisconsin. Hoje em dia sabemos demasiado sobre a vida dos outros, e quanto mais sabemos, mais percebemos que estamos destinadas a ficar em último lugar do grupo de mães neste jogo tão intenso.

 

Claro que é possível ficar inspirada com as grandes ideias para jantar no Goop ou com os excelentes exemplos dados por outros pais online. Contudo, e pessoalmente, eu não quero ler sobre os magníficos boutique hotéis ideais para crianças com quartos nas árvores na Suécia. Não quero saber sobre a mais deliciosa tarte de cereja que um super-relaxado "stay-at-home dad" fez com o seu filho de cabelos claros. Não estou interessada em ouvir teorias sobre como dar ao seu filho de cinco anos lições prematuras sobre equações complexas, ou sobre os inúmeros benefícios de viver em Berlim para a sua prole que agora fala alemão, anda de bicicleta e comboio. Existe demasiada pressão sobre os pais em geral e em particular sobre as mães, para manter os nossos filhos afastados de xarope de milho, bullies e carne de vaca industrial, enquanto os devemos introduzir em livros com capítulos, desenhos a carvão e parapente.

 

Talvez não seja ideal para uma criança ter a porta da frente de casa destrancada e passar todas as tardes a séries, tal como aconteceu comigo, no entanto, ultimamente temos caminhado tanto na direção oposta que passa a ser incompreensível como é que dois pais normais (e muito menos um!) podem aguentar. Eu gosto tanto de violinos, malhas e festas temáticas, como gosto do próximo Earthling. Mas antes de me aventurar nisso tudo, preciso de passar pelo meio da roupa suja para chegar à máquina de lavar loiça. Tenho receio de me atirar de forma entusiástica a atividades para crianças que necessitam de muito tempo e atenção e, com isso, perder tempo para gastar noutras coisas como, não sei, viver? Manter a forma? Ver os meus amigos ocasionalmente?

 

A nossa cultura atual exige que todas as mães sejam tudo, a todo o tempo. A minha meia-irmã contou-me que uma mãe da escola primária onde estão os seus filho pegou na t-shirt da escola, que toda a gente tem, e, meticulosamente, criou uma franja com contas na parte inferior, cintou a t-shirt e alterou as mangas. Todas as outras meninas aproximaram-se e gritaram diversas variações de "eu quero a mesma coisa". E em vez dos pais se rirem como os nossos pais fariam, todos os adultos murmuraram, "Sim, o.k., podemos fazer isso, claro, eu vou aprender um novo ofício bem desafiador. Hoje, claro. Fazemos à noite." Isto fez com que a minha meia-irmã, já atrasada para o trabalho, quisesse ensinar a algumas pessoas a artesanal arte de rearranjar a cara de outro usando somente as mãos. Hoje em dia nós somos constantemente ultrapassadas. Antigamente era suficiente impedir que a casa ficasse coberta por pelos de cão e fezes humanas. Agora já não é assim.

 

Há quarenta anos atrás, a minha mãe e as suas duas amigas bebiam café, comiam tartes de cereja caseiras e fumavam enquanto debatiam se um autor popular era honesto ou chauvinista, enquanto as suas crianças deveriam brincar ordeiramente na rua e raramente interromper. Hoje em dia, todas essas três mães teriam de estar ocupadas com algum trabalho manual elaborado, com cada uma das mulheres a parar de falar a cada segundo para abrir um frasco de tinta ou colar olhos pequeninos.

 

De alguma forma, à medida que fomos aprendendo a tratar as crianças como adultos com desejos e direitos próprios, deixámos de pensar em nós e nos outros. Mas isso até não é difícil de entender, quando a narrativa cultural predominante nos diz que já não somos mulheres animadas e inspiradoras, donas das suas próprias ideias e emoções, facilitadoras e sempre prontas a empregar em todos os momentos calma e diplomacia.

 

Não admira que tantas de nós tenhamos deixado de ouvir todas aquelas pessoas que nos dizem para desistir, abraçar a nossa dona-de-casa interior, ter tudo, aceitar menos do que tudo, ser mais francesa, ser menos agarrada, ser mais agarrada, seguir para um lado, seguir para o outro. As atuais, contraditórias e absurdas noções de maternidade desempenham melhor um papel de comédia do que outra coisa. E não interessa o que diz no guião, que nós não temos de desempenhar um papel tão ridículo e irrealista. Podemos ser mamãs, mas continuar a ser a mesma mulher antes dos filhos.

 

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