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Só entre nós

Só entre nós é um blog só para nós. Para escrevermos sobre aquilo em que pensamos, sobre o que gostamos, ou não, sobre viagens fabulosas, restaurantes, pessoas que admiramos, ou que nos deixam os cabelos no ar, livros lidos e muito mais.

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A história do Senhor Doutor

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Era uma vez um bebé que nasceu numa pequena aldeia do interior Norte de Portugal, no seio de uma família grande e sem posses. O mais novo de quase uma dezena de irmãos cresceu, estudou na cidade mais próxima da aldeia e, depois de prestar o serviço militar, decidiu rumar até à capital à procura de uma vida melhor.

 

O então jovem adulto arranjou um trabalho na capital, começou a estudar na faculdade em horário pós laboral, tirou o curso com alguma dificuldade, casou-se com o amor de infância (da mesma aldeia que o viu nascer), arranjou um trabalho dentro da área do seu curso e começou a trabalhar em part time.

 

A vida não lhe era meiga. Ganhava pouco, morava longe da cidade, não tinha carro, a mulher passava pelas mesmas dificuldades, mas quem lhe deu emprego depois do curso nunca o abandonou.

 

Com muita sorte, a ajuda e proteção sempre constante dessa pessoa, e também graças ao seu mérito, o jovem adulto tornou-se um adulto com sucesso na sua profissão. Nunca foi perfeito profissionalmente, são evidentes as suas falhas, mas o adulto foi-se transformando cada vez mais num Senhor Doutor.

 

Vinte anos depois, e sempre junto da pessoa que o ajudou após o curso, o Senhor Doutor já auferia um ordenado mensal líquido superior a 10.000 euros.

 

A vida corria bem ao Senhor Doutor. Os filhos estudavam onde o Senhor Doutor queria, as viagens só não eram feitas se ele não quisesse, a mulher podia não trabalhar que o dinheiro chegava e sobrava, e a sua presença era frequente nos melhores restaurantes.

 

Porém, e talvez devido à distância entre Lisboa e a pequena aldeia que o viu nascer no interior Norte do país, o Senhor Doutor passou a comportar-se como um verdadeiro Senhor Doutor, no sentido mais pejorativo que possa haver.

 

Hoje em dia o Senhor Doutor não atende um telefone, só se alguém lhe passar a chamada.

O Senhor Doutor recusa-se terminantemente a ir abrir a porta do seu local de trabalho se alguém tocar à campainha e não houver mais ninguém no trabalho. E gaba-se disso mesmo.

O Senhor Doutor recusa-se a fazer uma carta.

O Senhor Doutor recusa-se a receber alguém que apareça sem aviso.

O Senhor Doutor recusa-se, a não ser que não tenha mesmo outra hipótese, a ir cumprimentar pessoas mais pobres (no âmbito do seu trabalho).

O Senhor Doutor faz sempre questão de ir cumprimentar os mais ricos.

O Senhor Doutor vai sempre lavar as mãos assim que se despede de alguém. Se for alguém com poucos recursos, é capaz de lavá-las duas vezes.

O Senhor Doutor acha que é o melhor, o mais importante, alguém imprescindível.

O Senhor Doutor acha que todos os outros ao seu redor não valem nada, não são relevantes, podem ser substituídos por outros.

O Senhor Doutor inveja tudo o que os outros têm ou possam vir a ter, apesar de ele ter muito mais dinheiro do que os outros.

O Senhor Doutor trata mal quem lhe deu a mão. Quem o protegeu. Quem fez com que pudesse ganhar tanto dinheiro e ter a vida que tem.

O Senhor Doutor não dá mérito a ninguém.

O Senhor Doutor é um cobarde que fala mal todos os dias nas costas dos outros.

O Senhor Doutor é um cobarde que a seguir fala muito bem às pessoas que criticou.

 

A criança que nasceu e cresceu numa família humilde, boa e pobre, transformou-se num Doutor que parece uma coisa mas não passa de um pedante, cobarde, invejoso, convencido e mau carácter, que tantos anos depois nem sequer agradece a ajuda que sempre lhe foi dada.

 

O Senhor Doutor sofre de amnésia. Só pode ser isso.

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