Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Só entre nós

Só entre nós é um blog só para nós. Para escrevermos sobre aquilo em que pensamos, sobre o que gostamos, ou não, sobre viagens fabulosas, restaurantes, pessoas que admiramos, ou que nos deixam os cabelos no ar, livros lidos e muito mais.

Só entre nós

Só entre nós é um blog só para nós. Para escrevermos sobre aquilo em que pensamos, sobre o que gostamos, ou não, sobre viagens fabulosas, restaurantes, pessoas que admiramos, ou que nos deixam os cabelos no ar, livros lidos e muito mais.

A cozinha portuguesa é a pior do mundo - Artigo completo do The Times

TMM16COREN1_a_475010c.jpg

 

Graças ao Alexandre, um dos muitos visitantes do blog que se indignou com este post, posso agora publicar a crítica completa de Giles Coren, no The Times, auto denominado por especialista na comida portuguesa. Pelo menos desta forma, já não podem acusar os portugueses de se indignarem com algumas frases, sem terem lido o artigo completo (como já pude ler por aí...) ou de descontextualizarem as frases.

 

Ah, e já agora, relembro que este texto corresponde a uma crítica a um restaurante, apesar de grande parte ser um mero ataque gratuito ao nosso país e pessoas.

 

Segue o artigo traduzido. Podem ler o original mais a baixo.

 

"A comida em hotéis portugueses nunca é Portuguesa. As pessoas estão de férias. Isso não seria justo"

 

A cozinha portuguesa é a pior na terra. Ou, pelo menos, a pior de qualquer nação quente na terra. Obviamente, a culinária irlandesa poderia fazer-lhe frente. Ou a polaca. Mas, à sua frente, muito salgada ou insípida, a culinária portuguesa é, na melhor das hipóteses, o que a cozinha Inglesa seria se tivéssemos um clima melhor.

 

É verdade que a aliança entre Inglaterra e Portugal é a mais antiga do mundo. Porém, é menos frequente observar-se que a aliança não se baseia em conveniência política, mas sim num amor mútuo por um bacalhau encharcado, pão branco, batatas demasiado cozidas, queijo sem sabor, vinho doce e cremes frios.

 

E eu falo na qualidade de especialista. Já estive em Portugal dezenas de vezes e nunca tive uma boa refeição lá. Mas não vão a Portugal por causa da comida, pois não? Vão por... Espera aí, porque é que vão a Portugal?

 

Quando era criança, íamos ao Algarve sempre no verão para que os adultos pudessem jogar Monopólio e beber rum e coca-cola, e as crianças pudessem torrar ao sol até aparecerem bolhas nos ombros e começássemos a ferver, como sopas. A comida era a parte mais horrível, já naquela altura, com leite esterilizado a substituir o leite fresco e pasteurizado a que estávamos acostumados no pequeno-almoço, transformando o sabor dos nossos Frosties em Dettol.

 

Em 1975 Portugal já tinha deixado de ser um bom destino para férias. O meu pai costumava dizer, "Eu sei que a praia está rodeada de prédios e é feia, mas deviam ter visto em 1963, quando eu e a mãe viemos cá de lua-de-mel. Estava completamente intocada. Tínhamos o mar apenas para nós. Mas claro que não podíamos ir, por causa das alforrecas."

 

Sim, as alforrecas. As assassinas de crianças que - nas raras ocasiões em que o Atlântico o permite - impedem-nos de ir à agua. Ou até de estar na areia, com medo de pisá-las.

 

Uma das minhas memórias de Portugal é a de um homem a morrer lentamente num sofá de pele no lobby do hotel, depois de ter sido picado em julho de 1977. Na volta até estava a morrer por intoxicação alimentar... Aquela morte em público compete nas minhas memórias de Portugal com o ano em que uma enorme lagartixa, que eu adotei como animal de estimação, a quem dei o nome de "Zilla", e que andava por todo o lado nos jardins do hotel, foi decapitada com uma espada por um jardineiro. Lembro-me do corte na Zilla não revelar uma cor vermelha e sangrenta, mas sim uma coloração suave e verde, como um pepino. Chorei, claro. E então, o jardineiro pegou no corpo, lambeu os lábios e bateu na barriga na minha direção. Até hoje não sei se foi uma visão da cozinha portuguesa, ou humor português.

 

Mais tarde visitei hotéis no Algarve, mas nunca fui autorizado a deixar os hotéis. Talvez para não perceber que não há mais nada no Algarve a não ser hotéis de concreto, cheios de estrangeiros a tentar fugir. A comida nesses hotéis é sempre italiana ou francesa, ou, ultimamente, japonesa, para agradar aos russos, e nunca aos portugueses. Claro. As pessoas estão de férias. Não seria justo.

 

Eu não quero que os portugueses se sintam ofendidos. No geral, a porcaria que é a sua comida é o que os faz ser tão adoráveis. E eu já comi muito. Não apenas no Algarve, quando fugia das prisões que são os hotéis, mas inúmeras vezes em despedidas de solteiro em Lisboa e por todo o país aquando do Campeonato da Europa de 2004.

 

Talvez seja por isso que a frase "Restaurante português" não seja algo que se ouça muito.

 

Portanto, parabéns ao Nuno Mendes, anteriormente Chef Michelin, agora Chef de celebridades no Chiltern Firehouse (onde, como em Portugal, ninguém vai pela comida) e favorito de todos os críticos de restaurantes, que abriu recentemente um restaurante português em Spitalfields e fez um ótimo trabalho em replicar o horrível que é a sua cozinha nativa - apesar da sua inconsistência, e de haver uma duas coisas deliciosas que sugerem que não estava muito concentrado no seu trabalho.

 

Taberna do Mercado é um típico espaço para comer de tijolo e cal em Shoreditch, ao estilo St. John "Britapas", sem ser especialmente assustador. Porém, os menus chegam presos num estranho ganho de cobre, desenhado não para imitar o equipamento de pesca dos antigos marinheiros que levaram as técnicas de salmoura do bacalhau para os primeiros algarvios, mas sim para ser mais fácil de pendurar os menus por baixo da mesa. E é óbvio que era isso que tu mais querias fazer: pendurar o menu por baixo da mesa.

 

O menu é assim: Snacks - Queijoa - Enchidos - Conservas de peixe - Pequenos pratos - Sanduíches - Sobremesas.

"Ha ha ha ha", disse para o meu amigo, Kit. "Eles querem dar a entender que em Portugal as pessoas comem snacks, depois queijo, depois almoçam e ainda comem uma sanduíche!"

"Na realidade", disse uma famosa escritora de cozinha portuguesa, na mesa ao pé de nós, "nós comemos".

"A sanduíche aparece no fim porque a comida portuguesa é tão horrível que não consegues comer a maioria e no fim ainda tens fome?", perguntei.

"Não", disse ela. "É porque a refeição é normalmente de peixe e o peixe não enche ninguém."

 

E ela tem razão, não enche. Especialmente se tiver de atirá-lo para o vaso das plantas para não ofender o anfitrião.

 

Começámos com um "snack" de rissol de camarão que era demasiado pequeno, rijo e continha um aroma castanho a peixe. Tipo esgoto a vazar. Isto foi seguido de um "chouriço vinho tinto", que é chouriço português frito com uma redução de vinho tinto. Eu não sei se o chouriço português deve ser assim. Mas se o suposto é ser mais rijo do que o espanhol, cozinhado praticamente até ficar preto, ter textura de borracha como uma unha, e não ter muito sabor, então acertou em cheio.

 

Em seguida, "conservas de peixe". Esta foi uma homenagem à famosa exportação Portuguesa, com um confit de frutos do mar aparecendo em elegantes pequenas latas onde o empregado garantiu que o peixe tinha sido preparado. O resultado: nada funcionou. As pequenas vieiras perderam toda a sua doçura e passaram a borracha numa lata. E a cavala sob tomate sofrito, era simplesmente viscosa.

 

“Tártaro de porco Bisaro, caldo de cozido e couve” era uma bagunça de carne em água salgada, mas havia umas partes bem boas. Embora talvez apenas por comparação.

 

Nesta altura, a escritora de culinária sugeriu que experimentássemos as "migas", que são uma espécie de hambúrguer de papa de aveia sobre espargos selvagens e funcho, o que até é rico e interessante - embora seja o tipo de coisa que se consegue preparar quando se naufraga e não há mais nada para comer a não ser gordura de porco e serragem.

 

Neste momento a casa enviou um lindo pedaço de peixe com salada. Fresco e vivo, é o tipo de coisa que eu suspeito que possa chamar de testemunha quando montar uma defesa da comida portuguesa. Fez-me levar para um belo almoço relaxado na praia. Em Espanha ou na Grécia, claro. Não em Portugal.

 

Depois de deixarmos metade da nossa comida por comer, estávamos de facto esfomeados, tal como deve ser de acordo com a tradição portuguesa, e estávamos ansiosos pelas nossas enormes sanduíches de vaca (com pasta de camarão e alho) e porco (com maionese e funcho). Ambas estavam extraordinariamente bem feitas e deliciosas, o que indica que se calhar a Taberna do Mercado é uma deliciosa loja de sanduíches com um péssimo restaurante anexo.

 

Como pudim, trouxeram o famoso "pão de ló", que é uma espécie de soufflé mal cozido, num papel de cozinha numa forma. É tal e qual uma deliciosa sopa de laranja com bocados parcialmente cozidos na borda, que caem na parte molhada que nem dumplings.

 

Só que quando fui para casa e googlei "pão de ló", é que percebi que deveria ser um bolo com uma "firme, no entanto aérea estrutura".

 

Por isso, o que eu quero saber é o seguinte: o chef e a sua equipa (e a famosa escritora de comida portuguesa) sabem que o bolo tinha saído mal e estavam a brincar connosco? Ou a cozinha portuguesa é assim tão horrorosa, que eles nem sabem quando corre mal?

 

Taberna do Mercado
Old Spitalfields Market, 107b Commercial Street, London E1 (020 7375 0649; tabernamercado.co.uk)
Cozinha: 2
Sanduíches: 8
Serviço: 7
Pontuação: 5.67
Preço: £40/pessoa

 

Segue o artigo original, em inglês:

  

 

‘The food in Portuguese hotels is never Portuguese. People are on holiday. It just wouldn’t be fair’


Portuguese cooking is the worst on earth. Or, at least, the worst of any warm nation on earth. Obviously, Irish cooking could give it a run. Or Polish. But in its leaden, oversalted blandness, the cuisine of Portugal is, at best, what English cooking would be if we had better weather.


It is a creaking truism of international diplomacy that the alliance between Britain and Portugal is the oldest in the world. It is less often observed that the alliance is one based not on political expedience but a mutual love of soggy cod, white bread, overcooked potatoes, plain cheese, sweet wine and cold custard.


And I am speaking as an expert. I’ve been to Portugal dozens of times and I have never had a good meal there. But then you don’t go to Portugal for the food, do you? You go for … Hang on, why do you go to Portugal?


When I was a child we went to the Algarve every summer so the grown-ups could play Monopoly and drink rum and Coke, and the kids could burn so gruesomely that blisters bubbled up on our shoulders and we simmered visibly, like soups. The food was the standout awful thing even then, with sterilised milk substituting for the fresh, pasteurised stuff we were used to at breakfast, and making our Frosties taste of Dettol.


In 1975 Portugal was already past its best as a holiday destination. My dad would say, “I know the beach is all built up and ugly, kids, but you should have seen it in 1963 when your mother and I came here on honeymoon. It was completely unspoilt. We had the sea all to ourselves. Except, of course, we didn’t go in, because of the jellyfish.”


Oh yes, the Portuguese man-of-war. The child-killing, not actually a jellyfish thing that means – on the rare occasions when a flattening of the Atlantic waves makes it feasible – that you can’t go in the water. Or really even on the beach, for fear of treading on one.


A formative Portugal memory for me is of a man dying very quietly on a leather sofa in a hotel lobby after a sting in July 1977. Although it may have been food poisoning. That slow public expiration competes in my memories of Portugal that year with the huge lizard I adopted as a pet, gave the name of “Zilla”, and stalked all around the gardens of the hotel until a gardener decapitated it with a spade. I recall Zilla’s severed cross section being not red and bloody, but smooth and green like a cucumber. I cried, of course. And then the gardener picked up the body and made lip-licking and stomach-patting gestures in my direction. Whether that was an insight into Portuguese cuisine or Portuguese humour, I have never been sure.


In later life I have visited Algarve hotels on many a press freebie, but you’re never really allowed to leave the grounds. Perhaps because if you did you would discover that there is nothing else here except concrete hotels full of foreigners trying to get out. The food in these hotels is always Italian or French or, latterly, Japanese, to cater for the Russians, but never Portuguese. Obviously. People are on holiday. It just wouldn’t be fair.


I don’t want Portuguese people to be offended. In many ways their crap food is what makes them so loveable. And I have eaten plenty of it. Not just on Algarve prison breakouts but on countless Lisbon stag weekends and all over the country when the Uefa European Championship of 2004 was staged there.

 

Which is presumably why the phrase “Portuguese restaurant” is not one you hear very often.
So hurrah for Nuno Mendes, the formerly Michelin-starred, now celebrity-fêted chef of the Chiltern Firehouse (where, much like Portugal, nobody goes for the food) and personal favourite of all restaurant critics, who has opened a Portuguese restaurant in Spitalfields and done a very good job of replicating the horridness of his native cuisine – although it is inconsistent, and one or two rather delicious things suggest his mind was not fully on the job.


To look at, Taberna do Mercado is a standard brick and whitewash Shoreditch eating space of the post-St. John “Britapas” type, and not especially scary. But then the menus come on a weird copper hook designed not to mimic the fishing tackle of the early Basque sailors who brought cod-salting techniques to the first Algarvians, but to make it easy to hang under the table. Which is obviously what you always wanted to do: hang your menu under the table.


The menu then goes: Snacks – Cheese – Cured Meat – House tinned fish – Small plates – Sandwiches – Desserts.

“Ha ha ha ha,” I said to my friend, Kit. “They’re pretending that in Portugal people have a snack, then cheese, then lunch, then a sandwich!”
“Actually,” said a famous Portuguese cookery writer, leaning over from the table next to us, “we do.”
“Is the sandwich at the end because Portuguese food is so horrid you’ll have left most of it untouched and still be hungry?” I asked.
“No,” she said. “It’s because the meal is mainly fish, and fish doesn’t really fill you up.”


And she’s right, it doesn’t. Especially not if you’re scraping it into the pot plants to avoid offending your host.


We began with a prawn rissole “snack” that was two small, hard slippers containing a foul brown fishy effluvium. Like sewage leaking from an ornamental clog. This was followed by “chouriço vinho tinto”, which is fried Portuguese chorizo deglazed with red wine. Now, I don’t know what Portuguese chorizo is meant to be like. But if it’s meant to be tougher than the Spanish stuff, cooked pretty much to black, chewy as a fingernail and without much flavour, then this was bang on the money.


Next up, “tinned fish”. This was a riff on the famous Portuguese export, with confit seafood showing up in elegant little tins that the waiter claimed the fish had been cooked in. The result: vileness unbound. Tiny scallops had given up all the sweetness and bounce of their raw state without taking on the exotic golden frazzle they get when cooked, resulting in chewy snot gobbets in a tin. And the mackerel under tomato sofrito, which I had expected to mimic the state of tinned oily fish when it gets all ferrous and dense and meatily mature, had just got slimy.


“Bisaro pork tartare, cozido broth, cabbage” was a dismal mess of ground flesh in salty water, but then came some cuttlefish and pig trotters that were quite good. Though perhaps only by comparison.


At this point, the cookery writer suggested we try the “migas”, which was a sort of porridge burger under wild garlic asparagus and fennel, and was indeed a rich and interesting morsel – albeit the sort of thing you might hope to rustle up when shipwrecked with nothing to eat but pork fat and sawdust.


At this point, the house sent out a lovely bit of fish with a sharp little chopped salad. Fresh and lively, it was the sort of thing I suspect you might call as a witness when mounting a defence of Portuguese food. It put me in mind of a nice relaxed lunch on the beach. In Spain or Greece, that is. Not Portugal.


Having left half our food untouched, we were indeed still as starving as Portuguese tradition demands, and so yodelled for our huge post-prandial sandwiches of beef (with prawn paste and wild garlic) and pork (with yeast mayo and fennel). Both were outstandingly well made, tasty and thrilling, indicating that perhaps what we have at Taberna do Mercado is a brilliant sandwich shop with a terrible restaurant attached.


For pudding they brought out the famous “pão de ló”, which is a sort of uncooked soufflé in greaseproof paper in a baking tin. It’s like a delicious sweet orange soup with partly baked bits around the edges that fall into the wetness like dumplings.

 

Except when I got home and googled “pão de ló”, it said it was meant to be a sponge cake with a “firm, yet well aerated structure”.


So what I want to know is this: did the chef and his waiting staff (and the famous Portuguese cookery writer) know the cake had failed and were having a joke on us? Or is Portuguese cuisine just so awful that even they can’t tell when it’s gone wrong?


Taberna do Mercado
Old Spitalfields Market, 107b Commercial Street, London E1 (020 7375 0649; tabernamercado.co.uk)
Cooking: 2
Sandwiches: 8
Service: 7
Score: 5.67
Price: £40/head

 

 

26 comentários

Comentar post

Pág. 1/2