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Só entre nós

Só entre nós é um blog só para nós. Para escrevermos sobre aquilo em que pensamos, sobre o que gostamos, ou não, sobre viagens fabulosas, restaurantes, pessoas que admiramos, ou que nos deixam os cabelos no ar, livros lidos e muito mais.

Só entre nós

Só entre nós é um blog só para nós. Para escrevermos sobre aquilo em que pensamos, sobre o que gostamos, ou não, sobre viagens fabulosas, restaurantes, pessoas que admiramos, ou que nos deixam os cabelos no ar, livros lidos e muito mais.

Aquele momento... #9

 

Aquele momento em que percebes que o que está a causar a enorme fila de carros à tua frente é um condutor daqueles que nem por nada deste mundo ultrapassa os 10km/h...

Aquele momento... #8

 

Aquele momento em que pagas 23 mil euros num serviço do Estado no âmbito da tua atividade profissional e todos à tua volta pensam que és super rico (apesar daquele dinheiro ser dos teus clientes e não teu...)

 

Quando é que... me deixam em paz?!?

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Este post é escrito na primeira pessoa, mas tenho a certeza absoluta que este "drama" é comum a muitas pessoas.

 

Quando era criança, recordo-me de perguntarem frequentemente:

E namoradinha? Já tens uma namorada?

 

Quando era adolescente, a mesma pergunta:

Então e namorada?

 

Já com namorada:

Então e para quando é o casamento?

 

Após o casamento:

E filhos? Para quando?

 

Vários anos após o casamento:

Filhos? Então? Quando é que vem um bebé?

 

Quando finalmente nasce o bebé:

Então e um irmãozinho? Já está na altura de pensarem noutro filho. Dois é que é.

 

E que tal deixarem-me em paz? Era boa ideia, não era? Que mania é esta que as pessoas têm de viver obcecadas com a vida dos outros? O que é que lhes interessa se X tem namorada, se vai casar ou tem filhos? O que é que aconteceu para sentirem todos que têm algo a dizer na vida dos outros?

 

Tenho a sensação que todas estas perguntas, para além de revelarem uma tremenda cusquice e falta de educação, também demonstra que não têm nada de jeito para dizer. Por isso, e que tal se fechasse a boquinha? É que se é para fazer estas perguntas tolas sobre a vida dos outros, então estejam calados.

 

Ainda por cima eu tenho a certeza que isto é uma bola de neve. Após o quinto filho de certeza que viria:

Então e o sexto? Meia dúzia? Que tal?

 

E isto nunca vai ter fim. Um familiar meu já chegou a perguntar-me se o meu filho, que ainda nem tem dois anos, já tinha namorada. A sério?

 

E não me venham dizer que é brincadeira, porque não é.

 

Parece-me que a única alternativa é passar ao ataque com a mesma arma. Deixo algumas sugestões:

Então e um segundo filho?

E porque é que não teve um segundo filho?

 

Quando é que se casam?

Quando é que se divorciam?

 

Já tens namorada?

Já tem amante?

 

É capaz de resultar...

Aquele momento... #7

 

Aquele momento em mudas de faixa na estrada para uma que está a andar muito mais depressa, e depois ficas parado logo uns metros à frente a ver passar todos os outros carros à tua volta menos tu...

Casa de Chá da Boa Nova, 1 estrela Michelin - Maior surpresa 2016

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Começamos os prémios Só entre nós 2016 em grande, com a categoria "Maior surpresa 2016", cujo prémio vai para a incrível Casa de Chá da Boa Nova.

 

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Já conhecíamos o trabalho do Chef Rui Paula (crítica ao DOP aqui) e tínhamos a certeza que a Casa de Chá da Boa Nova deveria ser um ótimo restaurante. Mas nunca imaginámos que fosse assim tão bom. Daí merecer a vitória nesta categoria.

 

A nossa visita foi anterior à divulgação do Guia Michelin 2017 (umas semanas antes), mas ficou imediatamente claro que este era um restaurante merecedor de uma (ou mais) estrelas Michelin.

 

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A começar pelo incrível espaço. Situado em Leça da Palmeira e construído sobre os rochedos a dois metros do mar, este restaurante é um marco arquitetónico português, obra do "nobel" da arquitetura Siza Vieira e classificado como monumento nacional em 2011.

 

Mas para além de um marco arquitetónico, a Casa de Chá da Boa Nova é um marco gastronómico a não perder. Escolhemos o Menu Boa Nova (€85 por pessoa) que começou em cheio:

 

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Rosas (dispostas numa jarra no meio da sala, cortadas e servidas aos clientes) recheadas com guacamole de camarão. Receção agradável e muito fresca.

 

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Corneto de crème fraîche com ovas de salmão.

 

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Um fabuloso "bacalhau espiritual".

 

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Macarron de tinta de choco.

 

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Sempre tudo ao mais alto nível. Seguiram-se os pães: pão de couve portuguesa, pão de azeitonas e pão rústico. 

 

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E as manteigas.

 

Quando era expectável que começasse o menu, foram ainda servidos mais dois momentos verdadeiramente perfeitos.

 

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Tártaro de atum com lima e menta.

 

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Polvo na rocha e salada de polvo. Este último momento estava incrível e foi um dos pontos altos da refeição.

 

Começando então com o menu:

 

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Enguia (beterraba, tutano e pata negra).

 

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Lagostim (porco, ostra e maçã).

 

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Caldeirada (peixe da nossa costa, lula e petinga).

 

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Robalo no seu habitat (bivalves, algas e salsafi).

 

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Antes da passagem para o prato da carne, outro dos momentos da refeição - quando os vidros das janelas descem e o ar, sons e cheiros do mar entram pela sala do restaurante. É um momento incrível, e muito bem pensado. Em segundos o restaurante transforma-se e os dois espaços, interior e exterior, tornam-se num só, aproximando ainda mais o mar dos clientes. Perfeito.

 

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E, claro, a oportunidade de sair e fotografar a vista.

 

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Entre costela de wagyu (cantarelo, amaranto e couve-flor)

 

Todos os pratos conseguiram alcançar o tão desejável (e difícil) equilíbrio de sabores, não apresentando qualquer ponto negativo.

 

Passando à parte mais doce da refeição:

 

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Romeu e Julieta

 

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E duas sobremesas maravilhosas cujos nomes, infelizmente, não apontei.

 

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Para terminar, as mignardises.

 

Serviço excelente, espaço espetacular e comida perfeita.

 

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Só entre nós, a Casa de Chá da Boa Nova foi mesmo a maior surpresa gastronómica de 2016.

Aquele momento... #6

 

Aquele momento em que te começam a tentar vender um perfume na rua por 20 euros e perante a tua falta de interesse passam para 15, 10, 5, e olhas à volta para teres a certeza que não estás em Marrocos. 

Bacalhau assado no forno... com batatas fritas e muito sal

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Recentemente levei uns clientes estrangeiros (de um país não europeu) a almoçar a um restaurante de comida portuguesa.

 

Como é normal, aquilo de que eles já tinham ouvido falar era bacalhau. Por isso disseram que queriam bacalhau para poderem experimentar um prato tradicional português. 

 

Concordei com a escolha e olhei para a ementa:

  • Bacalhau com grão
  • Bacalhau assado no forno com batatas a murro

 

Traduzi e expliquei os dois pratos e a escolha recaiu no bacalhau assado no forno. Perfeito, pensei. Mas afinal não era bem assim...

 

"Queremos o bacalhau mas com batatas fritas.", disse um dos clientes.

"Desculpe? Como é que disse?"

"Queremos o bacalhau com batatas fritas. Adoramos batatas fritas."

"Pois, mas o bacalhau é no forno e já traz batatas... A murro.", e lá expliquei novamente como eram as batatas. "Não se come bacalhau com batatas fritas.", expliquei, pensando de imediato que com centenas de receitas de bacalhau, alguma até deve ser com batatas fritas, mas está longe de ser um acompanhamento normal...

"Está bem.", responderam. "Pode ser com essas batatas. Mas também com batatas fritas. Queremos bacalhau com batatas fritas."

 

Perante a insistência, transmiti o pedido ao empregado, para seu grande espanto e até alguma consternação.

 

As travessas de bacalhau lá chegaram, acompanhadas por uma travessa cheia com as tão desejadas batatas fritas.

 

Como se tudo isto já não fosse suficiente, assim que receberam as travessas polvilharam tudo com sal. Sim, tudo. Bacalhau, batatas fritas, legumes, batatas a murro... Depois provaram e logo a seguir pegaram novamente no saleiro e voltaram a polvilhar tudo. Até conseguirem a proeza de gastarem todo o saleiro e terem de usar outro. 

 

Já fui muitas vezes àquele restaurante e sei bem que a comida, por norma, está temperada corretamente, ou até um pouco acima do desejável. E a outra pessoa portuguesa que estava à mesa comeu o bacalhau e confirmou que estava bom de sal.

 

Por isso, e no fim de contas, eles queriam comer um prato tradicional e acabaram a comer um bacalhau assado no forno com uma travessa de batatas fritas e tudo fortemente salgado.

 

Very typical!

Aquele momento... #5

 

 

Aquele momento em que ouves: "Este apirador suca mesmo bem. É que suca mesmo. Já estou farta de aspiradores que não sucam nada, mas este não. Suca mesmo."

Meio milhão de visualizações!!!

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Parece mentira, mas acabámos de atingir meio milhão de visualizações... Quinhentas mil visualizações de páginas do Só entre nós... É um número incrível, pelo menos para nós. Com menos de três anos de existência atingimos um patamar que nos parecia impensável... E o Cisco Pisco também não está nada mal, com mais de cinquenta mil visualizações em pouco mais de um ano. 

 

Tudo isto é fruto de muito trabalho. Sim, ser blogger em mini part time dá trabalho. Mas também nada seria possível sem vocês. Sem as vossas visitas, comentários, partilhas e gostos nas redes sociais. 

 

Obrigado a todos os que visitam e ajudam os nossos blogs a crescer. E um obrigado especial ao Sapo, ao Sapo Blogs ao Pedro Neves e a toda a equipa. 

Homenagem ao Senhor do Adeus

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Não sei como tudo começou. Um dia estava na rua e acenaram-me. E eu acenei de volta.

 

Muitos diziam que era louco. Um milionário louco, que dizia adeus a quem passava de carro. Outros afirmavam que era um artista. Que aquela era uma performance dele. Outros afirmavam que era um desocupado. Que em vez de ficar em casa, ia acenar a desconhecidos. Outros punham em causa a sua orientação sexual, como se isso interessasse para algo ou alguém.

 

Certo é que poucos sabiam o seu nome. Se por acaso se falasse sobre ele, era sempre o maluco de Picoas que dizia adeus a quem passava na rua. Mas aquele "louco" tinha nome. Chamava-se João Manuel Serra, e reza a lenda que era filho de diplomata, vivia dos rendimentos, era extremamente culto e bem educado, viajou muito e a paixão da sua vida era a sua mãe. Quando esta morreu "perdeu tudo" e ficou sozinho no mundo. Para combater a solidão que sentia em casa, passou a sair de casa e a caminhar sozinho pela cidade durante a noite. Apercebeu-se então que havia quem lhe buzinasse e acenasse. "Quem lhe desse as boas noites como se faz nas aldeias.", como afirmou uma vez numa entrevista. Afinal, talvez não estivesse sozinho. Afinal, aqueles desconhecidos poderiam ser seus "amigos".

 

Começou então a acenar às pessoas. Passou por vários sítios de Lisboa onde dizia adeus até optar por ficar apenas em Picoas, onde passou toda a sua infância. A partir de então, era possível vê-lo praticamente todas as noites no passeio a acenar a quem passava e buzinava.

 

 

"Eu preciso disto, é o meu remédio, mas as pessoas que me cumprimentam também precisam de mim", dizia João Manuel Serra, segundo quem o conheceu de perto.

 

E eu só tenho de concordar... Sei bem que muitos dos que acenavam precisavam daquele gesto de João Manuel Serra. Sei que havia quem se sentisse igualmente só e aquele adeus, aquele aceno, era tudo o que precisavam na sua vida.

 

Percebo que muitos não entendam, percebo que muitos achem isto ridículo. Percebo que para muitos ele nunca deixará de ser louco, maluco, doido, desocupado, o que quiserem chamar-lhe. Percebo que muitos chamem o mesmo a quem lhe retribuía o aceno. E percebo ainda que muitos contestem a homenagem que a Câmara Municipal de Lisboa lhe fez. Mas sabem que mais? Não quero saber.

 

Para mim o aceno de João Manuel Serra era um momento especial. Sempre que estava no carro com os meus pais e passávamos por Picoas pedia ao meu pai ou mãe para buzinar. E lembro-me que cheguei a pedir para passarmos de propósito por Picoas para o ver. 

 

Ele dizia-me adeus, e eu dizia adeus. Durante muitos anos, sempre com um sorriso na cara e eu por vezes com olhos humedecidos. Ele ficava contente por dizer adeus e eu ficava contente por poder retribuir. Ali estava ele. Só, mas acompanhado por uma multidão. 

 

É uma imagem triste mas bonita, não é? Louco ou não, João Manuel Serra encontrou uma forma de contrariar a tremenda solidão que sentia ao cumprimentar pessoas na rua. E ao mesmo tempo que colmatava o seu sofrimento, também ajudava os outros a lutar contra o sofrimento, sem fazer mal a ninguém.

 

Estava apenas ali, a dizer adeus e a sorrir. Qual é o mal disto? Interessa assim tanto se era louco? Interessa assim tanto se a sua homenagem é devida?

 

Não me parece. Era apenas um homem que dizia adeus e a quem dizíamos adeus. Um homem só, acompanhado por milhares de pessoas.

 

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João Manuel Serra morreu em novembro de 2010, e pode agora ser recordado através da homenagem que lhe fizeram em Lisboa, na praça do Saldanha. Se puderem, passem por lá. E se tiverem coragem, digam adeus a alguém.